Dez Reis de Esperança
Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, não bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.
António Gedeão, in Poesias Completas (1956-1967)
O grande Rómulo de Carvalho!
ResponderEliminarBom dia de domingo, Léo.
O imenso Rómulo de Carvalho!
ResponderEliminarBom domingo também para ti, António.
Abraço
Um poema lindo que apetece ler e reler vezes sem conta.
ResponderEliminarTudo o que Gedeão nos legou são tesouros. Sinto o mesmo com a Calçada de Carriche e a sofrida Luísa.
Ali, na música à Sexta, mal ouvi os primeiros acordes, lembrei-me de imediato da canção. Duvido é que tenha visto o filme. mas se o vi não recordo o enredo.
Abraço
Gedeão é um dos meus preferidos!
EliminarAbraço
Um estado de alma arrepiante, mesmo que os dez reis mantenham o ser humano vivo por um fio...
ResponderEliminarEstamos todos por um fio!
EliminarO que me mantém à tona, talvez seja o riso dos amigos.
Abraço
Gosto tanto de Gedeão....
ResponderEliminarAbraço, feliz Junho.
Eu também!
EliminarAbraço
Um poema para ser consumido até à última palavra!
ResponderEliminarUm abraço e boa semana.
Exactamente!
EliminarAbraço
Gadeão não é o meu poeta português de eleição.
ResponderEliminarMesmo assim, gostei de ler o poema.
É um poema muito significativo!
EliminarAbraço
Só me lembro logo de "Eles não sabem que o sonho..." Espero que estejas a melhorar bem depois de um ano (mais) de dificuldades. E que a casinha permaneça e possa lá ir de vez em quando. è muito importante puderes por o pé nas terra. Abr Bettips
EliminarEles continuam a não saber que o sonho comanda a vida, Bettips!
EliminarSempre que vou à casinha, venho desanimada por deixar lá os meus livros. Tenho trazido alguns, mas ainda estão no chão.
Abraço