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sexta-feira, outubro 16, 2020

Cheiros

 Ao final da tarde, neste Verão de S. Martinho antecipado, há que regar os canteiros e os vasos aos quais chamo, muito pomposamente, jardim.

Logo que a água da mangueira cai sobre as flores, árvores , arbustos e outro tipo de plantas, elevam-se no ar cheiros cruzados.

O único que distingo perfeitamente é o cheiro da hortelã que prolifera por ali e a minha memória desenha-me logo um quadro familiar de infância. Nós quatro, sentados à mesa, a comer sopa de cozido ou canja de galinha caseira com ovinhos bem amarelinhos que a minha mãe tinha que dividir irmãmente por nós duas.

quarta-feira, janeiro 09, 2019

A carteira do meu pai

Contava o meu pai que, miúdo de dez, onze anos, andou durante largos meses a juntar todos os tostões que ia recebendo para comprar uma carteira.
A Feira da Santa Ana, em Julho, o grande evento da aldeia, seria como sopa no mel para  o seu objectivo se concretizar.
 Finalmente chegou a data tão ansiada e, logo de manhã, dirigiu-se ao largo onde os feirantes tinham montado as suas barracas que mostravam no seu colorido e diversidade todo o tipo de ofertas que atraiam centenas de forasteiros deslumbrados com tanta escolha. Uma feira de aldeia há 100 anos era como um centro comercial actualmente.
Depois de ter dado várias voltas pelas barracas para comparar preços e qualidade, acabou por se decidir por aquela que mais lhe agradou.
Voltou feliz para casa com a sua aquisição que mostrou, orgulhoso, aos pais e irmãos.
Só ao fim do dia é que caiu em sim quando constatou que tinha carteira mas não tinha dinheiro.
E terminava a história com uma enorme gargalhada!
Recebi este Natal uma bela carteira, daquelas que têm espaços para tudo, cartões, documentos, notas, moedas, calendários, fotos, etc..
Enquanto enchia a minha nova carteira, lembrei-me da carteira vazia do meu pai e sorri ao ouvir a sua gargalhada!

terça-feira, setembro 02, 2014

Aromas de Setembro

Logo que entra Setembro, vêm-me à memória a infância e os aromas que sentia quando entrava no grande celeiro dos meus avós paternos.
Maçãs, pêras, figos, bem enfileiradinhos, descansavam em tabuleiros de madeira que por sua vez estavam colocados em cima das arcas dos cereais,  ao lado das pipas do vinho.
Lá mais para o fim do mês, as uvas de mesa eram penduradas nas traves do tecto.
E havia fruta quase todo o ano.
Há dias, a convite de um primo que herdou a casa juntamente com dois irmãos, entrei no celeiro.
Tornou-se bem mais pequeno, não tinha nem arcas, nem pipas, nem tabuleiros com fruta...
Estava transformado numa espécie de depósito de livros que irá dar origem à vasta biblioteca do meu tio, falecido há dois anos.
Já não cheirava a fruta madura mas também ainda não cheirava a biblioteca.
Jurei não voltar lá!

quarta-feira, outubro 23, 2013

Trepadeira


( foto da net)


Era uma trepadeira como esta que cobria um dos muros do pátio da minha avó paterna.
Ver a que se encontra na vivenda ao lado da creche do meu neto é voltar às brincadeiras de infância naquele enorme e recatado espaço para onde se entrava ou pela porta da cozinha ou por um largo e alto portão de madeira.
Ali estava ao abrigo de todos os perigos e era feliz sem saber que o era!

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Erika

Re-editado

À noite, verifiquei que o DN, que entra diariamente cá em casa, também trazia um artigo sobre este assunto. Se eu fosse uma "blogger" como deve ser deveria agora acrescentar mais alguma coisa mas só tenho a corrigir a data da chegada das primeiras crianças austríacas - 1948.
Quanto à minha pessoa, aqueles que tentaram identificar-me fizeram-no correctamente, sou mesmo a mais pequenina das meninas.
Contudo, a Erika não é a loirinha de tranças, também tem tranças mas é a primeira a contar da esquerda, era ruiva de olhos verdes!



Estava a ler o jornal Público on line quando me deparo com uma extensa reportagem sobre crianças austríacas acolhidas em Portugal no pós-guerra, entre 1947 e 1953, ao abrigo de um acordo entre a Cáritas internacional, a portuguesa e penso que as dioceses.
Como tinha algo "agendado" sobre este tema decidi-me a alinhavar um pequeno texto, sem grande preparação, como é habitual comigo!
Também à minha aldeia chegaram sete crianças austríacas, sendo uma acolhida em casa de uma das  minhas tias paternas.
Chamava-se Erika e foi "adoptada" por toda a família, incluindo avós, tios, primos...
Esteve por duas vezes entre nós mas a segunda viagem já foi feita a expensas da família de acolhimento. Penso que talvez tivesse passado, durante as duas estadias, cerca de quatro anos em Portugal.
Lembro-me vagamente dela mas lembro-me sobretudo do que se contava dela depois de ter partido de vez.
Tinha um enorme pavor quando ouvia as buzinas das fábricas, corria a esconder-se debaixo da cama, convencida de que era um bombardeamento que lá vinha e a primeira palavra que aprendeu a dizer em português foi "burro".
Frequentou a escola, aprendeu a falar correctamente a nossa língua, queria ficar com os pais e irmãos adoptivos para sempre mas a mãe, era órfã de pai, não autorizou.
O "irmão" mais velho, muito viajado nunca a perdeu de vista nem quando se fixou na Suécia onde faleceu  com cerca de sessenta anos.
Ainda hoje este meu primo está em contacto com a filha e o marido da Erika.
No dia 1 de Janeiro, os primos e primas do lado paterno e respectivos consortes têm por hábito almoçar juntos e mais uma vez este ano falámos da Erika!
Há muitas fotografias dela mas eu tenho apenas esta, onde também estou presente.


É fácil adivinhar qual das meninas é a Erika e qual sou eu!
As duas jovens mais altas eram "irmãs", o "irmão" não está porque era uma fotografia apenas de "primas"