segunda-feira, abril 20, 2026

E escrevo o quê?

 Depois de mais de seis meses sem abrir este espaço, sinto uma certa estranheza acompanhada pela indecisão.

Irei continuar a postar, irei procurar temas interessantes para partilhar, ou simplesmente deixo acontecer, porque este não é um blogue de grandes voos.



domingo, setembro 28, 2025

Poesia ao domingo

 Nasceu-te um filho


Nasceu-te um filho. Não conhecerás,

jamais, a extrema solidão da vida.

Se a não chegaste a conhecer - já não conhecerás


a dor terrível de a saber escondida

até no puro amor. E esquecerás,

se alguma vez adivinhaste a paz

traiçoeira de estar só, a pressentida,


leve e distante imagem que ilumina

uma paisagem mais distante ainda.

Já nenhum astro te será fatal.


E quando a Sorte julgue que domina,

ou mesmo a Morte, se a alegria finda

- ri-te de ambas, que um filho é imortal.


Jorge de Sena, in " Visão Perpétua"


PS - Porque hoje seria o seu aniversário!

sexta-feira, setembro 26, 2025

Música à sexta



Homenagem a Cláudia Cardinale que partiu a 23 deste mês.

quarta-feira, setembro 24, 2025

Cinema

 Emir Kusturica é um cineasta e músico sérvio.

Com uma expressiva sequência de trabalhos internacionalmente aclamados, é visto como um dos mais criativos diretores de cinema dos anos oitenta e noventa.

Recebeu duas vezes a Palma de Ouro bem como a comanda francesa da Ordre des Arts et des Lettres.

Vi na segunda-feira, num horário que me levou para a cama depois da 1h e meia, o seu filme Underground ou Era uma Vez um País e pude, de novo,  constatar a sua originalidade.

Tendo como cenário a Jugoslávia, durante a 2aª Guerra Mundial, alia a cenas de uma enorme comicidade a tragédia de um território destruído. e com milhares de mortos.

Como músico introduz sempre uma sonoridade com um ritmo frenético, alucinante mesmo, mas também músicas da época em tom bem nostálgico.

É uma fábula apaixonante e metafórica  sobre o destino trágico da Jugoslávia, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1995.

Um "partisan" engana o seu maior amigo e restantes companheiros, mantendo-os numa cave mesmo após o final da guerra, convencendo-os que a luta continua e lucrando com o tráfico de armas.

No meio do cómico de muitas cenas também surge o elemento mágico que dão ao filme um tom de estranheza que se entranha.

domingo, setembro 21, 2025

Poesia ao domingo

 Canção de Outono


No entardecer da terra

O sopro do longo outono

Amareleceu o chão.

Um vago vento erra

Como um sonho mau num sono

Na lívida solidão.


Soergue as folhas e pousa

As folhas volve e revolve

Esvai-se ainda outra vez.

Mas a folha não repousa

E o vento lívido volve

E expira na lividez.


Eu já não sou quem era;

O que eu sonhei, morri-o;

E mesmo o que hoje sou

Amanhã direi: quem dera

Volver a sê-lo! mais frio

O vento vago voltou.



Fernando Pessoa

sábado, setembro 20, 2025

Autárquicas

 Vamos ter eleições Autárquicas no próximo dia 12 de outubro e a campanha eleitoral já mexe.

De novo, depois de alguns anos de interregno, eis-me envolvida na campanha no meu concelho e, sobretudo, na minha freguesia.

Numa terra onde o Chega conseguiu uma percentagem de votos superior ao nível nacional, torna-se premente uma campanha esclarecedora, criativa e com gente que já deu provas em várias áreas profissionais e sem telhados de vidro.

O Chega é uma séria ameaça à nossa democracia, há que combatê-lo com o exemplo da dignificação da política, sem o nomear. Quanto mais se falar dele, pior.

sexta-feira, setembro 19, 2025

Música à sexta

E vem aí o outono!


quarta-feira, setembro 17, 2025

Doce Setembro

 Setembro vai anunciando a chegada do outono, mas, por enquanto, os dias ainda estão luminosos e apetece acrescentar-lhes doçura.

Um dos meus pessegueiros deu fruta para dar e vender, fiz doce de pêssego, deram-me figos e transformei-os em doce.

Hoje, uma boa alma veio trazer-me um poceiro de maçãs de uma das minhas propriedades, já que estou impossibilitada de ir apanhá-las. Claro que serão transformadas em doce, mas talvez também faça umas tartes.

Adoro o cheiro adocicado que se espalha pela casa, durante estas minhas tão pouco habituais aventuras culinárias.

segunda-feira, setembro 15, 2025

Leituras

 O romance "Lillias Fraser" de Hélia Correia despertou-me um enorme interesse.

Começa com  a batalha de Culloden, na Escócia onde os escoceses católicos se opõem aos ingleses protestantes, numa tentativa de colocarem no trono o católico Charles Stuart.

A batalha resultou numa carnificina que matou vários clãs e levou "à deportação em massa dos escoceses para o novo mundo."

Tive que fazer consultas para entender esta luta.

Do massacre salvou-se uma menina loira, de olhos cor de mel que tinha o condão de adivinhar a morte dos que a rodeavam.

Depois de várias mudanças, vamos encontrar a protagonista em Lisboa, num convento de religiosas inglesas nas vésperas do terramoto de 1755. Adivinhando esse cataclismo, sai da cidade e chega a Mafra, cujo convento permanece de pé.

Regressa a Lisboa e visualizamos o horror da morte, da destruição e a ação do  Ministro, como construtor da cidade e perseguidor dos Távoras, entre outras vítimas.

Para abreviar Lillias Fraser, pela mão de Blimunda Sete-Luas, atravessa o Alentejo para ir dar à luz na terra de ninguém, entre Portugal e Espanha. 

E foi assim o seu encontro.

" A criança está bem. De hoje em diante, eu tomo conta de vocês as duas.

- Que criança, senhora? - disse Lillias.

- A que tu Lillias Fraser, vais parir.

- Como pode sabê-lo?

- Vejo dentro do corpo das pessoas quando estou em jejum - explicou Blimunda.

- Eu vejo a morte - disse Lillias.


Peço desculpa pelo atabalhoado do resumo, mas de facto a obra é interessantíssima do ponto de vista histórico.

domingo, setembro 14, 2025

Poesia ao domingo

Natália Correia nasceu, nos Açores,  a 13 de setembro de 1923 e é um vulto assinalável e desassombrado da nossa literatura.

Hoje recordo-a.


Há noites...


Há noites que são feitas dos meus braços

e um silêncio comum às violetas

e há sete luas que são sete traços

de sete noites que nunca foram feitas.


Há noites que levamos à cintura

como um cinto de grandes borboletas.

E um risco de sangue na nossa carne escura

de uma espada à bainha de um cometa.


Há noites que nos deixam para trás

enrolados no nosso desencanto

e cisnes brancos que só são iguais

à mais longínqua onda de seu canto.


Há noites que nos levam para onde

o fantasma de nós fica mais perto:

e é sempre a nossa voz que nos responde

e só o nosso nome estava certo.