Eu comprei um manjerico
Com ou sem harmónio
Em casa é que não fico.
Por aqui se pode avaliar o meu jeito para versejar!
Eu comprei um manjerico
Com ou sem harmónio
Em casa é que não fico.
Por aqui se pode avaliar o meu jeito para versejar!
E porque o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades foi há pouco e porque o Mundial de Futebol começou ontem e porque este fado tem muito de Portugal, aqui fica!
Quem me espera não me espera
Quem me ama já esqueceu
Quem me toca dilacera
Esta estranha primavera
Que o mês de Maio me deu
Eu já não sei o que tenho
Se febre, se mal ruim
Se este sentimento estranho
De não ser de onde venho
Comigo longe de mim
E assim fico sentado
Com as algas a boiar
De queixo na mão pousado
Ó meu barquinho parado
Sem porto para ancorar
António Lobo Antunes
" VODKA e VALIUM 10"
P.S. A Teresa, que está de férias no Porto, lembrou-me a feição poética de ALA, daí este poema.
Faz hoje 82 anos que se deu o desembarque das tropas aliadas, nas praias da Normandia que estavam divididas em 5 setores: Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword.
O desembarque em Omaha foi o mais sangrento, com milhares de mortos de um lado e do outro.
Estive lá, nessa zona costeira com alunos da minha escola e onde ainda se viam alguns obstáculos no mar e em terra restavam algumas casamatas de onde os soldados alemães atingiram milhares de aliados.
Também visitámos um museu que reconstituía o desembarque.
Neste dia iniciou-se o princípio do fim do nazismo e o fim da Segunda Guerra Mundial.
Julgávamos nós que, na Europa, não tornaríamos a assistir à barbárie de uma guerra, mas ela aí está e sem fim à vista.
Há muito que não tínhamos um anúncio tão original como este.
Aliás os nossos publicitários não andam nada criativos.
Este anúncio faz-me lembrar o "Tou xim".
Dez Reis de Esperança
Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, não bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.
António Gedeão, in Poesias Completas (1956-1967)