segunda-feira, maio 04, 2026

Vizinhos

 Há dias ouvi martelar no corredor, como ainda não conhecia nenhum vizinho do andar, conheço apenas alguma Irmãs da Comunidade Religiosa que ocupa todo o 3º piso, abri a porta e dei-me com um jovem às volta com a fechadura da porta.

Cumprimentei-o e apresentei-me, um pouco embaraçado também se apresentou, como não acrescentava mais nada perguntei-lhe se vivia sozinho.

Afinal vivia com a mulher e filhos, não sei quantos.

Disse-lhe que vivia sozinha e que se lhe tocasse à campainha ficava a saber que precisava de ajuda.

Sorriu, mas não respondeu que estivesse à vontade.

Esta vivência de se ignorar quem vive ao nosso lado ou em frente, não me agrada de todo.

domingo, maio 03, 2026

Poesia ao domingo

 Para Sempre


Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite, 

é tempo sem hora, 

luz que não apaga

quando sopra o vento

e a chuva desaba, veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe na sua graça, 

é eternidade.

Por que Deus se lembra

 - mistério profundo -

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo, 

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará para sempre

junto do seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.


Carlos Drummond de Andrade, in " Lição das Coisas"

quarta-feira, abril 29, 2026

Cataratas


 Não é bem uma catarata, é mais uma cascata, mas a minha aselhice não me levou mais longe.

Acontece que há muita gente viajada por aqui e que conhece muitas cataratas, eu tenho-me ficado pelas cascatas do continente e das ilhas.

Só que não é dessas que eu quero falar, vou falar da bela catarata, segundo a oftalmologista, presente no meu olho direito.

Irei ser intervencionada amanhã em Coimbra e, segundo amigos que já passaram por esta experiência, ficarei afastada de ecrãs durante pelo menos uma semana, também não poderei ler.

Enfim, resta-me ouvir música.

Assim ficam a saber o porquê da minha ausência

terça-feira, abril 28, 2026

Amizades virtuais

 A blogosfera trouxe-me amizades virtuais que se foram consolidando ao logo dos anos.

Algumas, poucas dessas amizades, mantêm-se firmes nas visitas que me fazem, com palavras de ânimo, de solidariedade e de companheirismo.

Conto sempre com elas.

Embora a lista de blogues que tenho para visitar seja longa, acontece que muitos foram morrendo na praia e outros partiram mesmo para outra dimensão. Assim restam-me poucos a comentar.

Apesar disso tenho por hábito comentar quem me comenta, desde que consiga aceder ao seu espaço.

É uma espécie de troca de visita.

Não os tenho acrescentado à minha lista porque me esqueci como se faz, mas um dia destes hei de tentar.

Às vezes interrogo-me sobre o facto de haver blogues que comento, mas que não se aproximam nunca do meu espaço e concluo que sou demasiado banal para os seus administradores.

A amizade virtual é muito interessante, porque acabamos por conhecer melhor alguns desses amigos do que gente que vive ao nosso lado e nada têm em comum connosco.

segunda-feira, abril 27, 2026

Faltou-me cantar

Gosto muito de música, de cantar e tenho saudades do tempo em que era contralto no Chorus Auris.

Para mim o 25 de Abril é festa, é música, é E Depois do Adeus, é Grândola, Vila Morena , é Vejam Bem, é Acordai, é o Hino Nacional e muitas mais músicas que sempre adorei cantar em coro.

Este ano e já no ano passado, circunstâncias bem desagradáveis impediram-me de me juntar a um grupo, ou mesmo a uma multidão.

Como consolo, tive nesse dia a companhia de uma amiga e juntas comemos, bebemos, conversámos, rimos e recordámos os velhos tempos em que éramos muitos.

Não cantei, mas foram horas muito agradáveis.

A Amizade também é uma festa!

domingo, abril 26, 2026

Poesia ao domingo

Faz hoje 110 anos que Mário Sá-Carneiro morreu em Paris aos 25 anos.
Foi um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d´Orpheu.



 

sexta-feira, abril 24, 2026

Descer a Avenida da Liberdade

Hoje seria, segundo o calendário anterior, dia de música, mas talvez por ter mudado de operadora ou por aselhice minha, não consegui introduzir o som que queria " Os Lobos e Ninguém ", com música e letra de José Luís Tinoco, desaparecido há dias, na voz de Carlos do Carmo. É uma música que recomendo, fala-nos da guerra colonial e implicitamente é um apelo à paz. 

Ontem no contacto telefónico diário com o meu filho, disse-me que viria sábado, como habitualmente.

Insurgi-me logo:

- Então não vais descer a Avenida com os rapazes?

- Pensei que preferias que fôssemos sábado...

- De maneira alguma! Primeiro está a festa da Avenida, de preferência com um cravo ao peito.

O cravo, ele não levará pela certa, é muito contido, mas eu irei jantar com uma amiga e lá estaremos nós, a festejar de véspera, de cravo ao peito, numa terra onde os cravos não proliferam!

quinta-feira, abril 23, 2026

Dia Mundial do Livro

 " - Eu também sinto necessidade de reler os livros que já li - diz um terceiro leitor - mas em cada releitura parece-me ler pela primeira vez um livro novo. Serei eu que continuo a mudar e vejo coisas novas que antes não tinha notado? Ou a leitura é uma construção que ganha forma juntando um grande número de variáveis e não se pode repetir duas vezes de acordo com o mesmo desenho? Sempre que tento reviver a emoção de uma leitura anterior, obtenho impressões diferentes e inesperadas, e não reencontro as anteriores.


In- Se Numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino


Nota: Acabei de ler este livro e essa leitura tornou-se um exercício de persistência, eu que de persistente tenho pouco ou nada.

Foi-me trazido pelo meu filho, ainda eu estava e estive em reclusão e disse-me que já tinha pegado nele várias vezes, mas que acabava por o largar.

Essas palavras levaram-me até ao fim da obra e, no fim, assimilei um pouco da sua mensagem que versa sobre o prazer de ler, de tal forma que são iniciados dez romances e nenhum é concluído. Torna-se numa espécie de busca pela continuidade de obras que se interrompem por estranhos acontecimentos.

E convosco o que se passa?

Gostam de reler certas obras ou não?

quarta-feira, abril 22, 2026

No último andar

 No último andar é mais bonito

do último andar se vê o mar.

É lá que eu quero morar.


O último andar é muito longe:

custa-se muito a chegar.

Mas é lá que eu quero morar.


Todo o céu fica a noite inteira

sobre o último andar.

É lá que eu quero morar.


Quando faz lua no terraço

fica tudo ao luar.

É lá que eu quero morar.


Os passarinhos lá se escondem

para ninguém os maltratar:

no último andar.


De lá se avista o mundo inteiro:

tudo parece perto, no ar.

É lá que eu quero morar:

no último andar.


Cecília Meireles

terça-feira, abril 21, 2026

Mudança

 Nestes últimos 2 anos, a minha mobilidade alterou-se e daí ter que deixar a casa que foi o meu porto de abrigo, durante 57 anos, apesar de ter feito outras escolhas temporárias.

Eis-me de novo no pequeno apartamento que comprámos há 23 anos, quando a casa sofreu um incêndio em Dezembro de 2003. Estivemos aqui quase 5 anos e foi um tempo doloroso, lembro-me de passar semanas deitada num sofá com um cobertor por cima da cabeça, após esse fatídico Dezembro de 2004.

Mas não podia continuar assim a bem da minha sanidade mental e do equilíbrio familiar.

Agora vou ter que criar novas vivências, umas vezes só , outras com o filho e os netos. Os miúdos, agora adolescentes, gostam deste espaço, mas adoram a vivenda e tudo o que ela representa na sua infância de citadinos.

Aos poucos vêm pertences de lá, embora seja impossível trazer tudo o que gostaria, sobretudo livros, quadros e as fotos de família que cobrem uma das paredes do meu escritório.