sexta-feira, abril 24, 2026

Descer a Avenida da Liberdade

Hoje seria, segundo o calendário anterior, dia de música, mas talvez por ter mudado de operadora ou por aselhice minha, não consegui introduzir o som que queria " Os Lobos e Ninguém ", com música e letra de José Luís Tinoco, desaparecido há dias, na voz de Carlos do Carmo. É uma música que recomendo, fala-nos da guerra colonial e implicitamente é um apelo à paz. 

Ontem no contacto telefónico diário com o meu filho, disse-me que viria sábado, como habitualmente.

Insurgi-me logo:

- Então não vais descer a Avenida com os rapazes?

- Pensei que preferias que fôssemos sábado...

- De maneira alguma! Primeiro está a festa da Avenida, de preferência com um cravo ao peito.

O cravo, ele não levará pela certa, é muito contido, mas eu irei jantar com uma amiga e lá estaremos nós, a festejar de véspera, de cravo ao peito, numa terra onde os cravos não proliferam!

quinta-feira, abril 23, 2026

Dia Mundial do Livro

 " - Eu também sinto necessidade de reler os livros que já li - diz um terceiro leitor - mas em cada releitura parece-me ler pela primeira vez um livro novo. Serei eu que continuo a mudar e vejo coisas novas que antes não tinha notado? Ou a leitura é uma construção que ganha forma juntando um grande número de variáveis e não se pode repetir duas vezes de acordo com o mesmo desenho? Sempre que tento reviver a emoção de uma leitura anterior, obtenho impressões diferentes e inesperadas, e não reencontro as anteriores.


In- Se Numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino


Nota: Acabei de ler este livro e essa leitura tornou-se um exercício de persistência, eu que de persistente tenho pouco ou nada.

Foi-me trazido pelo meu filho, ainda eu estava e estive em reclusão e disse-me que já tinha pegado nele várias vezes, mas que acabava por o largar.

Essas palavras levaram-me até ao fim da obra e, no fim, assimilei um pouco da sua mensagem que versa sobre o prazer de ler, de tal forma que são iniciados dez romances e nenhum é concluído. Torna-se numa espécie de busca pela continuidade de obras que se interrompem por estranhos acontecimentos.

E convosco o que se passa?

Gostam de reler certas obras ou não?

quarta-feira, abril 22, 2026

No último andar

 No último andar é mais bonito

do último andar se vê o mar.

É lá que eu quero morar.


O último andar é muito longe:

custa-se muito a chegar.

Mas é lá que eu quero morar.


Todo o céu fica a noite inteira

sobre o último andar.

É lá que eu quero morar.


Quando faz lua no terraço

fica tudo ao luar.

É lá que eu quero morar.


Os passarinhos lá se escondem

para ninguém os maltratar:

no último andar.


De lá se avista o mundo inteiro:

tudo parece perto, no ar.

É lá que eu quero morar:

no último andar.


Cecília Meireles

terça-feira, abril 21, 2026

Mudança

 Nestes últimos 2 anos, a minha mobilidade alterou-se e daí ter que deixar a casa que foi o meu porto de abrigo, durante 57 anos, apesar de ter feito outras escolhas temporárias.

Eis-me de novo no pequeno apartamento que comprámos há 23 anos, quando a casa sofreu um incêndio em Dezembro de 2003. Estivemos aqui quase 5 anos e foi um tempo doloroso, lembro-me de passar semanas deitada num sofá com um cobertor por cima da cabeça, após esse fatídico Dezembro de 2004.

Mas não podia continuar assim a bem da minha sanidade mental e do equilíbrio familiar.

Agora vou ter que criar novas vivências, umas vezes só , outras com o filho e os netos. Os miúdos, agora adolescentes, gostam deste espaço, mas adoram a vivenda e tudo o que ela representa na sua infância de citadinos.

Aos poucos vêm pertences de lá, embora seja impossível trazer tudo o que gostaria, sobretudo livros, quadros e as fotos de família que cobrem uma das paredes do meu escritório.

segunda-feira, abril 20, 2026

E escrevo o quê?

 Depois de mais de seis meses sem abrir este espaço, sinto uma certa estranheza acompanhada pela indecisão.

Irei continuar a postar, irei procurar temas interessantes para partilhar, ou simplesmente deixo acontecer, porque este não é um blogue de grandes voos.



domingo, setembro 28, 2025

Poesia ao domingo

 Nasceu-te um filho


Nasceu-te um filho. Não conhecerás,

jamais, a extrema solidão da vida.

Se a não chegaste a conhecer - já não conhecerás


a dor terrível de a saber escondida

até no puro amor. E esquecerás,

se alguma vez adivinhaste a paz

traiçoeira de estar só, a pressentida,


leve e distante imagem que ilumina

uma paisagem mais distante ainda.

Já nenhum astro te será fatal.


E quando a Sorte julgue que domina,

ou mesmo a Morte, se a alegria finda

- ri-te de ambas, que um filho é imortal.


Jorge de Sena, in " Visão Perpétua"


PS - Porque hoje seria o seu aniversário!

sexta-feira, setembro 26, 2025

Música à sexta



Homenagem a Cláudia Cardinale que partiu a 23 deste mês.

quarta-feira, setembro 24, 2025

Cinema

 Emir Kusturica é um cineasta e músico sérvio.

Com uma expressiva sequência de trabalhos internacionalmente aclamados, é visto como um dos mais criativos diretores de cinema dos anos oitenta e noventa.

Recebeu duas vezes a Palma de Ouro bem como a comanda francesa da Ordre des Arts et des Lettres.

Vi na segunda-feira, num horário que me levou para a cama depois da 1h e meia, o seu filme Underground ou Era uma Vez um País e pude, de novo,  constatar a sua originalidade.

Tendo como cenário a Jugoslávia, durante a 2aª Guerra Mundial, alia a cenas de uma enorme comicidade a tragédia de um território destruído. e com milhares de mortos.

Como músico introduz sempre uma sonoridade com um ritmo frenético, alucinante mesmo, mas também músicas da época em tom bem nostálgico.

É uma fábula apaixonante e metafórica  sobre o destino trágico da Jugoslávia, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1995.

Um "partisan" engana o seu maior amigo e restantes companheiros, mantendo-os numa cave mesmo após o final da guerra, convencendo-os que a luta continua e lucrando com o tráfico de armas.

No meio do cómico de muitas cenas também surge o elemento mágico que dão ao filme um tom de estranheza que se entranha.

domingo, setembro 21, 2025

Poesia ao domingo

 Canção de Outono


No entardecer da terra

O sopro do longo outono

Amareleceu o chão.

Um vago vento erra

Como um sonho mau num sono

Na lívida solidão.


Soergue as folhas e pousa

As folhas volve e revolve

Esvai-se ainda outra vez.

Mas a folha não repousa

E o vento lívido volve

E expira na lividez.


Eu já não sou quem era;

O que eu sonhei, morri-o;

E mesmo o que hoje sou

Amanhã direi: quem dera

Volver a sê-lo! mais frio

O vento vago voltou.



Fernando Pessoa

sábado, setembro 20, 2025

Autárquicas

 Vamos ter eleições Autárquicas no próximo dia 12 de outubro e a campanha eleitoral já mexe.

De novo, depois de alguns anos de interregno, eis-me envolvida na campanha no meu concelho e, sobretudo, na minha freguesia.

Numa terra onde o Chega conseguiu uma percentagem de votos superior ao nível nacional, torna-se premente uma campanha esclarecedora, criativa e com gente que já deu provas em várias áreas profissionais e sem telhados de vidro.

O Chega é uma séria ameaça à nossa democracia, há que combatê-lo com o exemplo da dignificação da política, sem o nomear. Quanto mais se falar dele, pior.