domingo, setembro 27, 2026

Poesia ao domingo

 Canção de Outono


No entardecer da terra,

o sopro do longo outono

Amareleceu o chão.

Um vago vento erra,

Como um sonho mau num sono,

Na lívida solidão.


Soergue as folhas, e pousa

As folhas volve e revolve

Esvai-se ainda outra vez.

Mas a folha não repousa

E o vento lívido volve

E expira na lividez.


Eu já não sou quem era;

O que eu sonhei, morri-o;

E mesmo o que hoje sou

Amanhã direi: quem dera

Volver a sê-lo! mais frio

O vento vago voltou.


Fernando Pessoa

16 comentários:

  1. Fizeste uma boa escolha!
    Beijos e um bom domingo!

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    1. Fernando Pessoa é sempre uma boa escolha! 😀

      Abraço

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  2. O vento que arrasta as folhas secas simboliza a dispersão dos pensamentos e a própria fragmentação da identidade do eu lírico, um tema que Fernando Pessoa viria a explorar exaustivamente mais tarde através dos seus heterónimos.

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    1. Depois da metáfora do vento como actuante na tal dispersão, na última estrofe debruça-se sobre a modificação do eu e o lamento do que já passou.

      Abraço

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    2. De qualquer maneira a influência do Walter Whitman é marcante. O António Lobo Antunes tem toda a razão.

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    3. Essa influência é mais notória no heterónimo Álvaro de Campos.

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  3. O vento é o ar em movimento e Pessoa sabia disso.
    Um abraço, Léo.

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    1. “Estou preso ao meu pensamento como o vento preso ao ar”

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    2. Fernando Pessoa consegue fazer poesia com tudo!

      Abraço

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    3. Impossível fugir dos seus pensamentos!

      Abraço

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  4. Pessoa escreveu poemas praticamente sobre quase tudo o que é imaginável.
    Boa tarde de domingo

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    1. Ele faz isso mas acrescenta associações inimagináveis!

      Abraço

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  5. Que belo o teu cabeçalho, Leo!
    Quando puderes, e se quiseres, explica-me como fazes para ampliar as fotos, pela via que mais te aprouver.

    Quanto ao poema de Pessoa, quando o comece a ler pareceu-me ser obra de Cesário Verde. Talvez por andar com ele na ideia...☺️

    Beijinhos

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    1. Não faço nada em relação às fotos.
      Vou ao Google Crome onde tenho as fotos transfiro-as e depois vou lá buscá-las. Não há truque com o aumento.
      Fernando Pessoa é mais introspectivo, mas também gosto de Cesário Verde, o poeta da melancolia na cidade.

      Abraço

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  6. Um poema profundamente marcado pela melancolia e pela passagem do tempo. Fernando Pessoa usa o outono, as folhas e o vento como metáforas da própria existência. Tal como a folha é levada pelo vento, também o ser humano vai mudando, deixando para trás aquilo que foi. Uma bela escolha para a época que parece estar a surgir.
    Um abraço.

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  7. A passagem do tempo e o que ela provoca no eu poético é uma das suas obsessões.

    Abraço

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