sábado, novembro 11, 2006

Mar


Já o vi com vários cambiantes de azul e verde, prateado, acinzentado, negro salpicado de estrelas pescadoras e até roxo. Mas nunca o tinha visto com uma imensa orla acastanhada desvanecida logo que a tempestade deu lugar à bonança .
Quando lhe lancei um último olhar, antes de regressar à serra, foi com um estontente azul turquesa que me presenteou.
E deixou-me, de novo, um pouco mais reconciliada com a vida!

sexta-feira, novembro 03, 2006

À espera de um sinal ao Sul

Vou partir rumo ao Sul
Sentar-me frente ao mar
E esperar
Que me dês algum sinal!

Pode ser
nuvem
estrela
gaivota
barco
concha
chuva
Seja o que for
Eu vou entender
Quando estiver
Frente ao mar
À espera
Do teu sinal...

quarta-feira, novembro 01, 2006

Dia do Bolinho

Neste dia 1 de Novembro, cumpriu-se mais uma vez a tradição e as crianças sairam de casa bem cedo, para pedirem o "Pão por Deus".
Mas a cidade dificulta-lhes a tarefa.
São prédios com muitos apartamentos, alguns vazios e elas já aprenderam que por aí não levam nada.
Optam pelas zonas de moradias onde as pessoas procuram estar presentes para as receber.
Contudo cada vez se vê menos criançada pelas ruas.
À minha porta não bateu ninguém!

domingo, outubro 29, 2006

Cidade


Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o meu vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de Mello, in Poesia

sábado, outubro 28, 2006

Polvo à moda do Porto


Não, não é de uma receita deste excelente molusco que eu vou falar, caros bloguistas que, eventualmente, me visitam.
É sim de um artigo da revista Visão que nos mostra num organograma (ou será um organigrama?) como funciona a Câmara Municipal do Porto, gerida por esse campeão da moralidade, o Dr. Rui Rio.
Aquilo são tentáculos por tudo o que é Departamento, Assessoria, Empresa Municipal!
Fiquei incomodada, escandalizada mesmo perante tal rede familiar.
Felizmente que na Câmara do meu concelho nada disto se passa.
Ninguém é filho, irmão, pai, mãe de ninguém.
Por mais competente que se seja, quem é familiar de algum dos principais responsáveis autárquicos , fica proibido de entrar em serviços dependentes da Câmara.
Por aqui impera a moral e os bons costumes!

quinta-feira, outubro 26, 2006

Lamento

Pátria sem rumo, minha voz parada
Diante do futuro!
Em que rosa-dos-ventos há um caminho
Português?
Um brumoso caminho
De inédita aventura,
Que o poeta, adivinho,
Veja com nitidez
Da gávea da loucura?

Ah, Camões, que não sou, afortunado!
Também desiludido,
Mas ainda lembrado da epopeia...
Ah, meu povo traído,
Mansa colmeia
A que ninguém colhe o mel!...
Ah, meu pobre corcel
Impaciente,
Alado
E condenado
A choutar nesta praia do Ocidente...

Miguel Torga

quarta-feira, outubro 25, 2006

Desabafo

Que Associação Humanitária é esta que retira 7 moradores em perigo de uma rua e não faz, de imediato, o reconhecimento total de toda a área?

Que vizinhos são estes que esquecem ou desconhecem a existência de uma idosa acamada a viver junto deles?

Que sociedade é esta que esquece os seus idosos e os deixa morrer no maior dos abandonos?

Quem sou eu para estar a apontar o dedo aos outros?

Afinal quem era esta senhora, moradora numa rua em Pombal, sem familiares, sem amigos, sem ninguém?

Talvez o seu último suspiro tenha sido de alívio por deixar este mundo-cão!

terça-feira, outubro 24, 2006

No Entardecer da Terra

No entardecer da terra
O sopro do longo Outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas, e volve, e revolve,
E esvai-se inda outra vez.
Mas a folha não repousa,
O vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E até do que hoje sou
Amanhã direi, quem dera
Volver a sê-lo!... Mais frio
O vento vago voltou.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

domingo, outubro 22, 2006

Alerta Amarelo

O aflitivo tilintar do espanta-espíritos da varanda e as bátegas de chuva na persiana não convidavam a sair de "vale de lençóis".
De olhos bem fechados, tentei elencar razões que me fizessem destapar a cabeça, soerguer-me e saltar da cama. Finalmente encontrei uma bem pertinente - a solidariedade conjugal.
Arrastei-me para a sala. Na SIC Notícias, Rui Cardoso Martins, jornalista do Contra-Informação, falava dos dislates governamentais da semana que terminou e afirmava que a partir de agora nada podia ficar como antes.
Dei uma olhadela à 1ª página do Expresso (ontem não o pude fazer, por estar numa festa de casamento) e aí, em letras garrafais o título: Orçamento Cruel. Na 2ª coluna desse artigo lê-se:
" O ministro das Finanças diz que quer tirar aos que mais têm. Mas o aumento de impostos para pensionistas e deficientes e as taxas moderadoras nas operações e internamentos tornam este OE, em certos aspectos, bastante cruel."
Decidi:- vou tomar o pequeno-almoço, talvez isso me anime!
De regresso à sala, a nova mirada na imprensa local e regional, saída na sexta-feira, não ajudou nada.
Os disparates das declarações dos governantes locais são cada vez mais preocupantes.
Novo intervalo, desta vez para o almoço, rápida arrumadela à cozinha, nova visita ao "museu do traje" e arrumação de gavetas.
Entretanto, o cara-metade, cheio de coragem, decidiu enfrentar a tempestade e foi beber café.
Volto para o sofá. A Nocas, a gata residente no apartamento, aninha-se no meu colo.
Afinal sempre há pequenos nadas que podem ser animadores neste dia de alerta amarelo!

sexta-feira, outubro 20, 2006

Sem Paciência!

Acabei de ter este desabafo num dos blogues que visito diariamente - estou sem paciência!
Será da chuva?
Será dos 360 euros das minhas novas lentes?
Será da visita que fiz ao meu museu do traje? ( sim, eu tenho um museu do traje só meu )
Será por ter aí verificado que o que me sobra em roupa, falta-me em bom gosto?
Será que é por ser o fim-de-semana não? ( ausência do filho )
Será por tentar ler à luz de velas, para ser uma consumidora exemplar?
Será pela breve leitura de alguns artigos na imprensa local e regional? ( e ainda não cheguei à nacional)
Por que será?