quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Senhora das Candeias


Hoje, dia 2 de Fevereiro, é dia de Nossa Senhora das Candeias, da Luz ou da Purificação.
Enraíza esta festividade do calendário religioso católico na lei de Moisés que obrigava as mães a apresentarem-se no Templo para a cerimónia da purificação, 40 dias depois do nascimento de um filho e 80 depois do nascimento de uma filha. As mulheres sempre ligadas à impureza!
Cruza-se ainda com o culto à Deusa Ceres, a mãe das colheitas, para os Romanos, com o Imbolc ou Oilmec, um dos quatro festivais Celtas e é também um dos oito sabbats da religião Wicca.
No Brasil é a festa da Senhora da Candelária também associada a Iamanjá, protectora dos pescadores e marinheiros.
Em França é "La Chandeleur" que se festeja com "crêpes"...
É assim uma festa multi-religiosa!
Para mim, desde miúda, é o dia de comer filhoses fritas em azeite novo...
Quando o tempo o permitia, nessa época, íamos comê-las debaixo de uma oliveira para que a azeitona e o azeite a partir dela não nos faltasse à mesa, assim como a luz que iluminou durante séculos os nossos antepassados.
Pelo casamento, entrei numa família onde esta tradição se mantinha, exceptuando o local onde se comiam, e voltei a festejar a Senhora das Candeias.
Chegávamos os quatro a casa dos meus sogros e encontrávamos a minha sogra de volta de uma enorme frigideira onde as  filhoses já dançavam no azeite a ferver, um alguidar de massa de um lado e outro de filhoses douradas, polvilhadas de açúcar escuro, do outro.
Começávamos logo a comê-las, os miúdos ficavam completamente lambuzados.
Havia sempre uma panela de sopa de feijão encarnado e o jantar desse dia ficava completo com filhoses antes, sopa e filhoses com café de cevada depois e ainda trazíamos algumas para casa para o pequeno-almoço do dia seguinte.
Se as filhoses da minha infância feitas pela minha avó paterna eram uma delícia, as da minha sogra não lhe ficavam atrás.
Nunca experimente fazê-las mas costumo comprá-las no supermercado ao fundo da rua e para que a tradição não fique totalmente desvirtuada vou comê-las debaixo de uma oliveira.  




(Imagem da net com um dos símbolos do Imbolc)


Muito mais haveria a dizer sobre esta festa mas já me excedi, para o meu habitual!

19 comentários:

Catarina disse...

Rosa dos Ventos, minha amiga!
Enquanto lia – sempre com prazer, quer seja um ou uma dúzia de parágrafos – ia pensando: a Rosinha hoje está muito “escrevidora”! E eis que faz um comentário lá abaixo (ou lá acima) a propósito da tua inspiração!
Não conhecia a tradição ou se a conheci algum dia, tinha esquecido. Hoje, como vês, estou em cima do acontecimento! Temos que tirar proveito do dia de nevão! Abraço.

Sonhadora disse...

Foi com muito agrado que li o teu texto sobre a Senhora das Candeias. Essa tradição das filhoses desconhecia completamente. Aqui pelo norte creio que nunca se usou. Já tive hoje a oportunidade de dizer à Catarina que a Senhora das Candeias por aqui está associada ao tempo. Se no seu dia a Senhora rir está o inverno para vir. Se chora está o inverno fora.
Beijo

flor de jasmim disse...

Rosa dos Ventos
Como é saudavél as recordações de quando meninas como as já adultas. Recordar é viver minha amiga, eu tenho muitas boas recordações da minha infãncia com o meu pai que me criou, porque minha mãe abandonou-me era eu muito pequena, hoje em casa existe sempre algo que me faz recordar minha infãncia e falar no meu pai que já partiu, assim como recordo os miminhos da minha sogra que eu adoro e que ainda vive o filho é que já partiu. Amiga bom proveito para essas felhoses que eu tanto gosto. E que mantenhas essa tradição durante muitos anos.
Beijo

O caçador de brumas disse...

São sempre oportunas e desejadas as "notícias" dos tempos em que fomos felizes. Às vezes recordar faz bem!
Quando se apróxima o poente - o que não é o teu caso! - esses tempos e essas memórias têm a patine das fotografias antigas: não são a preto e branco e muito menos coloridas; são, normalmente, sépias. Uma cor de que eu muito gosto.
Mas isso são outras histórias...
Beijocas
js

carol disse...

As coisas que eu aprendo contigo! É que eu não sou muito dada a tradições... Mas gostei de ler.
Só um comentário muito pessoal: a minha sogra também era/é assim....

Beijinhos e bons frito!

Rosa dos Ventos disse...

Assim como?
Amiga de tradições ou amiga de fazer filhoses? :-))
Parece-me que, além de não seres dada a tradições, também não gostas de filhoses... :-))
Eu não as frito, compro-as prontas a comer.
Não gosto do cheiro a fritos... :-((

Nina disse...

Acreditas que tenho no frigorífico massa de crêpes, que é a minha especialidade, e os amigos que cá vêm jantar vão obrigar-me a mandá-la para o lixo, porque têm o colesterol descontrolado?
É...
Parece que Deus dá as nozes a quem não tem dentes.
Joyeuse Chandeleur.:)
bji

(CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

Que legal isso. Não conhecia essa tradição religiosa tão bonita e você nos trouxe. Obrigado por isso. Beijos

flor de jasmim disse...

Minha querida
Não resisti sem voltar aqui depois do comentario que a minha amiga deixou no meu cantinho. Minha querida entendi que partiu um filhote seu será? A mim partiu o meu pai minha irma meu marido e o meu netinho com apenas seis mesinhos. Quero lhe dar um grande abraço solidário desta amiga virtual mas que sentiu sua dôr.
Beijo

Anónimo disse...

Desde que me conheço como gente que em nossa casa se faziam fritos
(não se chegava ao apuro das filhós)cumprindo a tradição da região para que não faltasse nunca a produção de azeite,embora de oliveiras eu só tivesse as que via no quintal do vizinho e as do avô que vivia em S.Pedro da Beberriqueira-Tomar e nos mandava umas boas bilhas em lata pela camioneta das 5h,com alguma gorgetazita para o cobrador que,naquele tempo, cobrava,carregava as bagagens e ainda dizia "obrigado" com a mão na pala do boné (safa!).Pois, por aqui,quem não tivesse posses para fazer as filhós ou filhoses estrelava um ovo porque o importante era não esquecer o dia fritando algo.
Pelo que li nos comentários,esta tradição seria das regiões de cultivo de oliveiras.Vou investigar e, quem sabe, fazer doutoramento...Abraço Kinkas

Rosa dos Ventos disse...

Querida Kinkas
Os teus comentários vêm sempre acrescentar algo mais...
De facto só se pode festejar aquilo que se tem ou aquilo que os nossos avós nos deixaram.
Onde não há olivais não há esta tradição.
Do meu lado paterno e materno havia bastantes olivais, além de muitos filhos... :-))
O meu avô materno tinha um enorme lagar de azeite, ainda sinto o cheiro daquele espaço que agora está ao abandono e recordo a azáfama da apanha da azeitona!
Por acaso herdei do lado do meu pai um bom olival que este ano deu apenas azeitona para a mesa, acho que foi devido à limpeza que as oliveiras sofreram no ano passado.
Pois faz lá as tuas investigações e o respectivo doutoramento e depois convida-me para a defesa da tese! :-))

Rosa dos Ventos disse...

Nina
Deitar fora massa de "crêpes" é pecado!
Mais vale mandar o colesterol dos amigos às urtigas! :-))

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Bela resenha da história de Nossa senhora das Candeias, que também recordei lá no CR.
Entretanto, fiquie a saber que nos estados Unidos é o dia da...Maromota!

maria mar disse...

Gostei de te ler hoje. Gosto da tradição mas estou como tu, não gosto do cheiro dos fritos. Comi uma filhós...cumpri a tradição.
Beijinho

Rui da Bica disse...

Nunca tinha ouvido nada sobre esta tradição. Os filhoses comiam-se (em casa dos meus pais) pelo Natal e na verdade já há umas dezenas de anos que os não como !
Quanto ao "dia" apenas ouvi falar em Senhora das Candeias, mas nunca o soube relacionar.
Aprendi ! :))
bj
.

redonda disse...

Não conhecia este Dia. Gostei muito do texto e da ideia de nos próximos anos poder começar a comemorar o dia com filhoses :)
um beijinho

Tite disse...

Ainda bem que ainda cheguei a tempo de aprender algo que desconhecia como ligado aos olivais, à azeitona e aos fritos.

Na família havia terras e cultivos mas nada relacionado com oliveiras, por isso... desconhecia, com grande pena minha, esta bela e útil tradição.

Para o ano vou aproveitar para estrelar uns ovos pois adoro-os mas fritos em azeite. Ficam mais saborosos e menos nocivos ao colesterol.

Obrigada por mais uma lição de tradição lusa e não só.

tsiwari disse...

Uma ternura este post.



Beijo

bettips disse...

Lindíssimo. Não sei se aqui no Norte se usa,
sei que as filhoses da minha avó eram as melhores do mundo...mas foi há tanto tempo, tudo era parco, o azeite era "um quartilho" e, se vinha alguma garrafa da aldeia, era uma festa. Só se usava para ocasiões especiais, um bom bacalhau. Verde escuro e espesso, lembrava o sacrifício de varejar com tempo frio (Carrazeda de Ansiães). E por lembranças me vou, obrigada!
Bjs