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sábado, fevereiro 08, 2014

Manhã cinzenta

O tempo cinzento, triste, chuvoso, ventoso tem-me mantido confinada ao bairro como freira de clausura no seu convento.
Mas, ontem de manhã, tive mesmo que sair da minha zona de conforto e ir até à Colina de Santana da qual desconhecia o nome que agora aparece diariamente nos jornais devido ao projecto de encerramento dos quatro velhos hospitais que aí se encontram - S. José, Santa Marta, Capuchos e Miguel Bombarda que seriam encerrados e os seus serviços transferidos para o novo hospital de Todos os Santos, para se proceder a uma requalificação urbanística, processo que parece não estar a ser muito pacífico.
E aí vou eu de metro até ao Marquês. 
Durante o percurso pude mais uma vez constatar que as estações são agradáveis, bonitas, mesmo, algumas e encontram-se limpas, as carruagens estão igualmente limpas embora com os vidros selvaticamente riscados. 
Quanto aos passageiros já não poderei transmitir uma visão optimista. A maioria distinguia-se pelo ar macambúzio, jovens e menos jovens, uns de olhar perdido num vago ponto em frente do nariz, outros clicando no telemóvel, outros ainda dormitando, raros a ler jornais ou livros...
Um silêncio pouco vulgar àquela hora do dia, sem conversas, sem sorrisos, sem gestos, sem olhares.
Decididamente, este é o inverno do nosso descontentamento! 


(imagem da net da estação do Campo Pequeno)

domingo, dezembro 22, 2013

Lamento de comerciante

Hoje, quando fui comprar o jornal à papelaria do costume, aqui em Lisboa, reparei num cartaz escrito à mão no exterior da mesma e que dizia mais ou menos o seguinte:
"Caros amigos e vizinhos
Como continuam a preferir as grandes superfícies para comprarem os vossos livros, apesar de ter aqui preços e títulos muito aliciantes, venho comunicar que, brevemente, vou deixar de vender livros.
A escolha foi vossa!"

Fiquei com um nó na garganta!

segunda-feira, novembro 18, 2013

Do Bangladesh para Portugal

Quando vim viver para Lisboa, havia um mini-mercado no rés-do-chão do prédio que era explorado por estrangeiros, talvez indianos...nunca lhes perguntei a nacionalidade.
Vendiam o básico na área da mercearia mas não tinham legumes e fruta muito pouca.
O estabelecimento não convidava a entrar porque, ou por maneira de ser ou por falarem muito mal português, não eram simpáticos nem primavam pela higiene.
Fecharam em Abril.
Há umas semanas notei grande azáfama nesse espaço e deduzi que iria reabrir com nova gerência.
Eu, que detesto grandes superfícies, fiquei feliz da vida quando lá entrei pela primeira vez.
Tudo bem arrumado, prateleiras bem expostas, variedade de legumes e fruta, preços razoáveis e uma enorme simpatia.
Perguntei aos dois jovens que lá se encontravam, um na caixa, o outro a ajudar a clientela de onde eram e eles responderam:
- Bangladesh!
- Bangladesh?! - questionei com admiração.
- Sim!- disseram eles com um largo sorriso.
Estão abertos das 8 h da manhã às 11  h da noite e o primeiro cumprimento de "Bom dia!" que recebo quando chego à rua é deles, acompanhado de:
- Hoje tudo fresquinho, senhora!
Estou a torcer para que tenham sucesso.

segunda-feira, setembro 09, 2013

Um novo amigo

Um dia passei quase rente à janela que estava aberta. Ele estava debruçado no alto parapeito, olhei-o nos olhos, sorri  e dei-lhe os bons dias, respondeu-me também com um sorriso, a voz firme e um delicado inclinar da cabeça encimada por farta cabeleira branca.
A cena passou a repetir-se diariamente, com uma variante.
Quando a janela está fechada, apenas se lhe vê a cabeça até aos olhos...é uma daquelas janelas onde foi colado um material translúcido até determinada altura para não se ver para dentro quando o cortinado está aberto. Nessas ocasiões ele levanta a cabeça quando passo e erguemos o braço ao mesmo tempo numa amistosa saudação.
Hoje a cabeça estava de tal forma inclinada que, quando passei a empurrar o carrinho do meu neto a caminho da creche, o nosso olhar não se cruzou.
Virei-me para trás numa última tentativa de contacto. Ele estava de pé e acenava energicamente na minha direcção, ostentando um largo sorriso. Correspondi ao cumprimento!
E agora é assim.
Comunicamos por um breve bom dia, por sorrisos, por olhares e por gestos esfuziantes, nada protocolares.
Viva! - como diria o meu neto - tenho um novo amigo! 
Não sou de me gabar mas penso que também comecei a fazer parte da sua vida...

terça-feira, setembro 03, 2013

Arco da Rua Augusta e A Última Fronteira


No dia 27 de Agosto fomos até ao topo do Arco da Rua Augusta!


Impossível não ficarmos deslumbrados com uma perspectiva jamais vista.



Quer em cima...


...quer em baixo!



Depois seguiu-se a visita a esta exposição que se encontra a decorrer até ao dia 15 de Dezembro na Torre Poente do Terreiro do Paço.
Digitalizei esta foto a partir do documento que me foi dado como guia para uma visita mais completa.
São doze as salas temáticas desde a chegada dos refugiados até à sua partida, passando também por aspectos locais, a cidade, os correios, informação e propaganda, sala de cinema onde passa um filme feito de documentários da Lisboa da época (muito interessante), o paraíso dos espiões...


Esta é a indicação da entrada para a exposição.


A sala de entrada com as malas dos refugiados...


A opinião de alguém que nunca ouvira o pregão dos ardinas!



Uma mala de viagem de senhora vista por dentro...


Crianças lisboetas dos bairros pobres...



A opinião de Antoine de Saint-Exupéry sobre Lisboa,  desaparecido durante a guerra..


Uma das fotos que mais me impressionou e que documenta a espera que "tinha os seus lugares diurnos e nocturnos: os cafés da Baixa, os hotéis, as esplanadas, os jardins, as agências de viagens, as companhias de navegação e os consulados e embaixadas." 

"Lisboa, o único porto livre e neutral da Europa, transformou-se em ponto de encontro e sala de espera de todos aqueles que fogem de Hitler  De facto, não foram nem uma exposição universal, nem um festival o que atraiu tantas pessoas para estas ruas. São exilados, apátridas, aqueles que aqui se concentram. E que coisa podem fazer? Apenas uma: ficar cá enquanto tiverem autorização para isso. Apenas esperar. E por quê? Pelo navio salvador que os levará daqui, para qualquer lugar, desde que seja longe, o mais longe possível do inimigo que lhes ia no encalço para onde quer que fossem. Ele tinha-os perseguido por toda a Europa, e agora esperavam pelo navio salvador."

Erika Mann


E o Tejo ali à nossa frente sempre que passávamos por uma janela ou varanda!
O rio onde se mira a cidade que foi porto de abrigo para milhares de europeus fugidos à fúria assassina do regime nazi!


Nota: Peço desculpa pelo número excessivo de fotos e ao mesmo tempo por ter dito tão pouco desta excelente exposição que vos aconselho a visitar!

quarta-feira, agosto 14, 2013

O vizinho do 6º andar

Alto, magro, nada espadaúdo, com barba de três dias, muito na moda agora, sempre de óculos escuros, independentemente da hora do dia, na casa dos cinquenta, encontro-o muitas vezes no elevador, na escada, na entrada do prédio, acompanhado pelos seus dois minúsculos e simpáticos cães.
Como gosto de animais, faço-lhes umas festas, converso com eles, não sem antes me dirigir ao dono com um sorridente "Bom dia" ou "Boa tarde"
Mas qual quê?! O único troco que recebo é um grunhido sem significado e umas trombas de assustar gente menos afoita do que eu.
Descobri que mora no 6º andar a partir da selecção do botão do elevador.
Penso que, ao olhar para o meu ar de provinciana, tem receio que, um dia destes, lhe toque à campainha para lhe pedir um ovo ou mesmo um raminho de salsa.
Só pode!