Um dia passei quase rente à janela que estava aberta. Ele estava debruçado no alto parapeito, olhei-o nos olhos, sorri e dei-lhe os bons dias, respondeu-me também com um sorriso, a voz firme e um delicado inclinar da cabeça encimada por farta cabeleira branca.
A cena passou a repetir-se diariamente, com uma variante.
Quando a janela está fechada, apenas se lhe vê a cabeça até aos olhos...é uma daquelas janelas onde foi colado um material translúcido até determinada altura para não se ver para dentro quando o cortinado está aberto. Nessas ocasiões ele levanta a cabeça quando passo e erguemos o braço ao mesmo tempo numa amistosa saudação.
Hoje a cabeça estava de tal forma inclinada que, quando passei a empurrar o carrinho do meu neto a caminho da creche, o nosso olhar não se cruzou.
Virei-me para trás numa última tentativa de contacto. Ele estava de pé e acenava energicamente na minha direcção, ostentando um largo sorriso. Correspondi ao cumprimento!
E agora é assim.
Comunicamos por um breve bom dia, por sorrisos, por olhares e por gestos esfuziantes, nada protocolares.
Viva! - como diria o meu neto - tenho um novo amigo!
Não sou de me gabar mas penso que também comecei a fazer parte da sua vida...