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sábado, agosto 02, 2014

Feliz Idade

Já acabei a leitura deste romance de Valter Hugo Mãe há bastante tempo mas só agora ganhei coragem para ir além de meia dúzia de linhas e cansar-vos um pouco mais do que o habitual.
Chamo-vos a atenção para o facto de o autor escrever sempre com minúsculas independentemente da pontuação usada.




Feliz Idade é o nome da residência sénior para onde vai António Jorge da Silva, após a morte da sua  companheira de mais de 40 anos.
Aí encontra outros Silvas "somos todos Silvas neste país" e até o Esteves do poema Tabacaria, de Álvaro de Campos.
Aquela que à partida poderia parecer-nos uma narrativa deprimente devido à avançada idade da maioria das personagens acaba por se tornar uma interessante e até alegre descoberta de que o final da vida ainda nos pode trazer aprendizagens surpreendentes ...pelo menos é essa a conclusão a que chega o sr. Silva, narrador-personagem quando já na sua fase terminal confessa a um dos técnicos do lar:
"...depois confessei-lhe, precisava deste resto de solidão para aprender sobre o resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei já ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos. e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade. hoje percebo que tenho pena da minha laura por não ter sido ela a sobreviver-me e a encontrar nas suas dores caminhos quase insondáveis para novas realidades, para os outros. os outros, américo, justificam suficientemente a vida, e eu nunca o diria. esgotei sempre tudo na laura e nos miúdos, esgotei tudo demasiado perto de mim, e poderia ter ido mais longe."


quarta-feira, julho 31, 2013

Histórias Falsas

Deixo-vos um extracto de uma das "Histórias Falsas" de Gonçalo M. Tavares que acabei de ler, para poderem opinar sobre a mesma.
Acontece que ao investigar no Google sobre Listo Mercator, uma das personagens, deparei com um blogue onde também havia esta transcrição que acabou por dar origem a alguma desconversa...
Gostaria, por isso, de saber se alguém "desconversa" sobre o que se segue:

"Descia Mercatore umas pequenas escadas quando deparou com o filósofo, pobremente vestido, sentado no chão, costas contra a parede, a comer lentilhas.
Arrogante, mais do que o seu costume, cheio de vaidade pela riqueza que ostentava e pelo estômago farto, Mercatore disse para Diógenes:
- Se tivesses aprendido a bajular o rei, não precisavas de comer lentilhas.
E riu-se depois, troçando da pobreza evidenciada por Diógenes. O filósofo, no entanto, olhou-o ainda com maior arrogância e altivez. Já tivera à sua frente Alexandre, o Grande, quem era este , agora? Um simples homem rico?
Diógenes respondeu. À letra:
- E tu - disse o filósofo - se tivesses aprendido a comer lentilhas, não precisavas de bajular o rei."

terça-feira, março 05, 2013

O meu eu desconhecido...

"As pessoas gostam de usar palavras que não são de ninguém. Todos os dias há milhões de sentimentos, de desejos, de opiniões expressas com palavras forasteiras. Quantas vezes serão os sentimentos a adequar-se às palavras, e não o contrário? Seremos tão parecidos que não precisemos de encontrar palavras que nos sirvam?
Os artistas têm muitos nomes para diferentes azuis, os esquimós têm muitas palavras para diferentes tipos de gelo. Os apaixonados deveriam ter também muitas palavras para "amor": o amor da manhã, o amor do fim, o amor do passado, o amor possível. Todos deveríamos ter diferentes palavras para "eu": o eu que eu sinto, o eu que tu vês, o  eu que eu não sou."

In "No Meu Peito Não Cabem Pássaros" de Nuno Camarneiro

Vou a meio deste livro e esta passagem chamou-me a atenção precisamente pelo período final, o que fala do "eu".
É que eu não sei que "eu" sou e nesse caso precisaria de uma palavra para nomear o "eu" que desconheço!
E desse lado, será que também há gente que se desconhece?
Admiro a segurança com que tantos e tantas falam de si!
Serei um caso patológico?