domingo, outubro 29, 2006

Cidade


Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o meu vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de Mello, in Poesia

4 comentários:

Eyes wide open disse...

Gosto particularmente destes registos de Sophia que contrapõem a nossa vidinha citadina a todas as outras coisas fantásticas de que deixamos de usufruir por cá estar... "Quando morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar" é a sua frase minha favorita.

Eyes wide open disse...
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Paulo Sempre disse...

Obrigado pelo comentário. Se verificou a lição do "padre" foi em 1995. Tinha eu 15 anos (não 25).
Ainda assim, um beijo
Sofia de Mello, foi uma poetisa do "sonho" e daquelas coisas que vêm dos confins dos tempos mas são sempre "assustadoramente" actuais.

Luis Eme disse...

A Sophia é assim, brilhante e assombrosa...