quinta-feira, janeiro 24, 2013

Erika

Re-editado

À noite, verifiquei que o DN, que entra diariamente cá em casa, também trazia um artigo sobre este assunto. Se eu fosse uma "blogger" como deve ser deveria agora acrescentar mais alguma coisa mas só tenho a corrigir a data da chegada das primeiras crianças austríacas - 1948.
Quanto à minha pessoa, aqueles que tentaram identificar-me fizeram-no correctamente, sou mesmo a mais pequenina das meninas.
Contudo, a Erika não é a loirinha de tranças, também tem tranças mas é a primeira a contar da esquerda, era ruiva de olhos verdes!



Estava a ler o jornal Público on line quando me deparo com uma extensa reportagem sobre crianças austríacas acolhidas em Portugal no pós-guerra, entre 1947 e 1953, ao abrigo de um acordo entre a Cáritas internacional, a portuguesa e penso que as dioceses.
Como tinha algo "agendado" sobre este tema decidi-me a alinhavar um pequeno texto, sem grande preparação, como é habitual comigo!
Também à minha aldeia chegaram sete crianças austríacas, sendo uma acolhida em casa de uma das  minhas tias paternas.
Chamava-se Erika e foi "adoptada" por toda a família, incluindo avós, tios, primos...
Esteve por duas vezes entre nós mas a segunda viagem já foi feita a expensas da família de acolhimento. Penso que talvez tivesse passado, durante as duas estadias, cerca de quatro anos em Portugal.
Lembro-me vagamente dela mas lembro-me sobretudo do que se contava dela depois de ter partido de vez.
Tinha um enorme pavor quando ouvia as buzinas das fábricas, corria a esconder-se debaixo da cama, convencida de que era um bombardeamento que lá vinha e a primeira palavra que aprendeu a dizer em português foi "burro".
Frequentou a escola, aprendeu a falar correctamente a nossa língua, queria ficar com os pais e irmãos adoptivos para sempre mas a mãe, era órfã de pai, não autorizou.
O "irmão" mais velho, muito viajado nunca a perdeu de vista nem quando se fixou na Suécia onde faleceu  com cerca de sessenta anos.
Ainda hoje este meu primo está em contacto com a filha e o marido da Erika.
No dia 1 de Janeiro, os primos e primas do lado paterno e respectivos consortes têm por hábito almoçar juntos e mais uma vez este ano falámos da Erika!
Há muitas fotografias dela mas eu tenho apenas esta, onde também estou presente.


É fácil adivinhar qual das meninas é a Erika e qual sou eu!
As duas jovens mais altas eram "irmãs", o "irmão" não está porque era uma fotografia apenas de "primas"

31 comentários:

Rogério Pereira disse...

A história também se faz com a memória de afectos...

Rui da Bica disse...

Houve casos de sucesso com esses refugiados austríacos:

Um deles de nome Gerhard Schiesser veio para casa de Henrique Amorim (cortiças) em 1948, onde ficou até meados dos anos 50. Em fins dessa década já o Américo Amorim (o sobrinho), andava pela Europa em negócios e procurou o já ex-refugiado austríaco, com óptimas relações com os países de Leste, com quem criou uma relação que seria essencial . Através da Gerhard Schiesser GmbH, sedeada em Viena, a Corticeira Amorim, passa a exportar cortiça para lá do Muro de Berlim sem a denominação de origem portuguesa (impossível na altura), com pagamentos feitos por Viena e cria ainda ligações com a China e com Cuba.

Este seu contacto foi determinante para que ele tenha construído um verdadeiro império !

Sobre a foto, só poderás ser a mais pequenina ! :))
.

Mariposa Colorida disse...

Nasci um pouco mais à frente desses tempos...mas fascinam-me estas histórias! E hoje tinha ouvido na rádio que era o dia da Erika e confesso que estava completamente ignorante quanto ao assunto.

Flor de Jasmim disse...

Eu nasci em 1956 em criança não recordo ouvir falar desses acolhimemntos, no entanto anos mais tarde já casada conheci uma senhora que tinha sido acolhida por uma familia que eu própria pensava que eram pais dela porque o amor que existia não dava para terceber o contrário.
Adorei esta estória de afectos, como costumo dizer, os sentimentos não se inventam.

beijinho e uma flor

P.S. Espero que a tua garagem esteja recomposta.

Rui Pascoal disse...

Desse lindo "bouquet" eu diria que era o botão de rosa mais pequenino.
:)

Graça Sampaio disse...

Tempos difíceis esses! Belas recordações! Histórias como esta (e como a do Rui) deve haver imensas por por esse Portugal fora. Somos um povo inclusivo. (Também não pode ser tudo maus, né?)

Beijinhos.

Janita disse...

Belas e enternecedoras menórias, como o são todas as que envolvem laços de afecto e ternura!
Se a Rosa é a menina mais pequenina, será que a Erika é a menina loira e sorridente que está na frente da jovem mais alta?

Uma foto preciosa!

Abraço-a, Rosa! Obrigada por partilhar connosco algo tão valioso.

bettips disse...

Um país de braços abertos, cenho franzido mas de coração acolhedor quando é preciso. Bela história; e ainda o que se soube a mais através dela. Não se imagina o que a guerra deslaça, mata e fere: se os homens tivessem sempre presente essas feridas, NÃO haveria guerra nem pavor dela. Bastava as que sabemos, aqui, ali e além.
Bjs

mlu disse...

São histórias verdadeiramente comoventes! Houve muitas crianças austríacas também aqui, em Ourém e eu lembro-me de algumas delas. Há 2 ou 3 meses veio cá um dos rapazes refugiados, celebrar os 90 anos da única senhora viva, da família de acolhimento! E foi à procura do merceeiro(agora com 89 anos) da rua onde viveu que lhe dava bocadinhos de chocolate.Entrou na loja com um sorriso imenso, bateu no peito e "reapresentou-se": Ernesto! O senhor Manuel contou-me há dias o episódio com os olhos cheios de lágrimas e de gratidão!
Somos um povo assim!

Um abraço

redonda disse...

Não consigo adivinhar, mesmo aumentando a fotografia :( mas também pensei que pudesse ser a mais pequenina como no comentário em cima :)

mlu disse...

Esqueci-me dos palpites: Erika deve ser a menina sorridente, em frente à "irmã" mais alta. A Rosa dos Ventos é a mais pequenina, uma rosa em botão! Acertei algum?

Um abraço.

Portal de Blogs Teia disse...

Olá.
Adorei passar por aqui e conhecer seu cantinho.
seu blog é muito bom, parabéns.
Sempre que possível estarei passando pra ver as novidades.
Até mais

São disse...

Uma dor de alma, o sofrimento infligido às crianças...

Pelo que percebi, Erika já morreu. De que nacionalidade era?

Um abraço com votos de que aí esteja bem mais seco do que aqui.

Mar Arável disse...

Memórias que o tempo não apaga

Donatien disse...

Fantástica esta estória!

Teté disse...

Há pessoas que nos ficam para sempre na memória, passe o tempo que passar...

E se há coisa que me cause real pavor são esses traumas de guerra: em miúdos pequenos e graúdos! Deve ser difícil viver a vida, quando se entra em pânico com uma buzina...

Lá adivinhar quem tu eras é mais difícil, a Erika deve ser aquela loirinha de tranças da esquerda. Curioso também que ainda hoje numa aldeia perto da Figueira existem várias pessoas loiras de olhos claros, descendentes de alemães e austríacos que vieram para Portugal na época... ;)

Abraço

Justine disse...

Tantas histórias dessas, Rosa! Na minha terra - Caldas da Rainha - houve uma colónia enorme de refugiados judeus, que por lá ficaram durante muitos anos...mas nunca conheci nenhum pessoalmente!
É bom recordar...

maria mar disse...

São estórias um pouco mais velhas que eu, mas que adoro ler e ouvir contar. Somos um povo com uma alma imensa. É muito bom haver ainda recordações dessas.
Bjinho

Mariinha disse...

Sabia da vinda dessas crianças austríacas para famílias portuguesas. Outros povos podem também ser solidários, mas não sei se criam laços afectivos com tanta facilidade como os portugueses. Somos assim, e ainda bem, é o que nos distingue dos demais.

Beijinhos e bom fds

O Puma disse...


Significativo

é que também lá estava

quem és, que fazes aqui? disse...


Quase todas as diversas secções da família receberam crianças. Em casa dos meus avós maternos, estiveram duas meninas austríacas de famílias diferentes, durante cerca de três anos. A minha mãe contava que, nos primeiros meses, elas acordavam aos gritos e se escondiam no vão das escadas (uma divisão onde se punha a roupa para lavar) sempre que ouviam abrir o portão de ferro da garagem.

Durante anos houve correspondência entre elas e a minha família mas, a certa altura, perdeu-se o contacto.
A História em memórias...

Beijo e bom domingo

Laura

Rosa dos Ventos disse...

Interessante aquilo que o Rui da Bica conta sobre os negócios da família Amorim relacionados com este acolhimento!
Desconhecia esses meandros da internacionalização dessa empresa!

Rosa dos Ventos disse...

A Laura refere que também a sua família acolheu crianças austríacas...
É óbvio que as crianças foram acolhidas por famílias com um certo perfil económico e social para poderem dar-lhes tudo aquilo que não podiam ter num país devastado pela guerra!

marina disse...

Não sabia nada desta historia, e agora fiquei super curiosa, vou ler mais sobre o assunto.
Adorei saber!

Evanir disse...

Estou a 7 anos na blogosfera : A viagem é o casula
hoje completando 2 anos de vida.
Quantos momentos alegres e triste também
faz parte da nossa jornada.
Deus permita muitos anos de vida para mim e meu blog
um mundo fantástico.
Onde nossas amizades sem face completa de maneira
sobrenatural minha vida.
Obrigada pelo seu carinho por fazer parte da minha caminhada
muitas vezes cansada ou meu caminhar um pouco mais lento.
Hoje deixo na postagem mil carinhos para você
um mimo desse dia feliz.
E o sorteio de mais 2 livros meus não
importa qual Pais será ganhador receberá com certeza com muito amor.
Pode até pensar porque sorteio tantos livros meus não é mesmo?
Por ele ser bom e de alguma forma deixar um pouco de mim para vocês.
Meu eterno carinho.
Um feliz final de semana.
Beijos na alma e no coração.
Evanir.
Estou só esperando você com muito carinho.

Catarina disse...

Que recordação tão enternecedora.
Abraço

Dalma disse...

RV, pela idade,68, tive o privilegio de ser "irmã " do Rodolfo, um menino de 8 anos que veio para nossa casa. Temos várias fotografias e logo que chegue ao Areeiro vou fazer um post sobre ele.

Rosa dos Ventos disse...

Cá fico à espera, Dalma!
Eu fui só "prima" e um pouco mais nova, não muito, mal me lembro da Erika mas como é recordada tantas vezes pelos primos e primas mais velhos é como se me lembrasse...

Abraço

Duarte disse...

Um relato empolgante com o qual conseguiste emocionar-me.
Um abraço grande

Annie G. disse...

Boa tarde Rosa e amigos. Estou neste momento a trabalhar numa investigação da Universidade do Porto sobre as crianças Caritas acolhidas em Portugal entre 1947-58 entre as quais está a sua muito querida Erika.Agradecia-lhes que - se tiverem interesse, obviamente - visitassem e se agregassem ao grupo recentemente criado no Facebook para facilitar o contacto entre envolvidos (de alguma forma) nesta Ação. Agradecia também que, sendo possível, me contactassem diretamente. Todas as informações são absolutamente preciosas nesta fase. Desde já grata pela atenção.

Annie G. disse...

Aqui está o link para o grupo
https://www.facebook.com/#!/groups/1043964402358447/
Sejam bem-vindos!