quinta-feira, agosto 26, 2010

Intervalo literário...ou nem por isso!

Ando a ler "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago.
Aliás, uma das minhas grandes penas é já não ter tempo para ler as muitas dezenas ou talvez centenas de livros que estão arrumados na minha livraria, que não é de pedra como "A Livraria do Mondego".
A páginas tantas surge um extracto que me trouxe à memória uma forma, um sabor, um cheiro, uma textura que sempre identifiquei com as férias de Verão, na Nazaré, quando era miúda.

"Ricardo Reis dissera ao gerente, Mande-me o pequeno-almoço ao quarto, às nove e meia, não que pensasse dormir até tão tarde, era para não ter de saltar da cama estremunhado, a procurar enfiar os braços nas mangas do roupão, a tentear os chinelos, com a impressão pânica de não ser capaz de mexer-se tão depressa quanto merecedora a paciência de quem lá fora sustentasse nos braços ajoujados a grande bandeja com o café com leite, as torradas, o açucareiro, talvez uma compota de cereja ou laranja, ou uma fatia de marmelada granulosa, ou pão-de-ló, ou vianinhas de côdea fina..."

E as vianinhas que eu só comia na Nazaré, não as havia na minha aldeia, ganharam forma ali, naquele tabuleiro carregado por Lídia, a criada do Hotel Bragança.
Lembrei também os papo-secos, termo que ainda uso, teimosamente, renitente a pedir:
- Dê-me meia dúzia de bolinhas, por favor!
Já não há papo-secos, já não há vianinhas, só há bolinhas.
E são uma lástima!
Sabem a plástico...
Eram assim as vianinhas e a foto é da net.

25 comentários:

goiaba disse...

Também comi vianinhas mas compradas numa padaria da Av.de Roma. Será que ainda há? Qualquer dia passo para ver.
Abraço ( também ando cheia de tentações em relação a livros lidos há muito tempo ... mas os outros, Senhor?)

carol disse...

Tão boas as vianinhas! Lá em Algés havia e a minha avó, aquela que tu conheceste, comprava-as só para mim. (Por isso é que eu sou, ainda, uma mimalha...) O "Ano da morte de Ricardo Reis" também é muito bom. Para mim é o melhor dos livros de Saramago.
Obrigada pelas vianinhas...

Maria disse...

Eu descia as escadas interiores e chegava à saída da fornada das vianinhas, que eram comidas ainda quentes, com a manteiga caseira a derreter...
Ai saudade do cheiro do pão cozido em forno de lenha...

Um abraço.

AC disse...

Pelas minhas bandas ainda há papo-secos, alguns feitos em forno de lenha. Ao pequeno-almoço, estaladiços, são uma delícia!

Beijo :)

Raquel Alves disse...

um texto ternurento de alguém que saboreia a vida. Grande beijinho

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Há quanto tepo não como uma Vianinha!

mlu disse...

Hummm! Estaladiças e apetitosas, há muito tempo que não como estas delícias! É a globalização no seu pior, «o mundo pula e avança» esquecendo coisas tão boas como as vianinhas.

Abraço

Justine disse...

O que a literatura nos pode oferecer, quando sabemos ler com todos os sentidos! Saboreia bem a tua vianinha, Rosa e continua a pedir papo-secos, que a isso chama-se resistência!

Pitanga Doce disse...

Nem me fales em vianinhas, viriatos, e outros afins engordiets que desde que os Reis chegaram as calças já custam a passar (sabem bem aonde) hehe.

Olha deixei recado nesta rapariga que está aqui acima de mim. Vai lá ver e organizem-se se puderem.

beijos daqui da serra.

ONG ALERTA disse...

Devem ser maravilhosas, paz.
Beijo Lisette

Há.dias.assim disse...

Ontem não consegui deixar comentário.
Deixo hoje um beijinho!

Anónimo disse...

Quando peço papo-secos por cá ficam sempre a olhar para mim como quem diz: "Mas de que planeta é que este vem?"

Sérgio (o teu!):-)

Rosa dos Ventos disse...

Vem do planeta materno! :-))

Bisous

Anónimo disse...

As "vianinhas" cá (norte) eram de pão de regueifa e mais alongadas, tipo barco.
Estas eram "pão dos 4 cantinhos"... Luxos que a avó dava, a avó que se levantava cedo e fazia a sopa com horas de fervura...
Nunca pedirei papo-secos na vida: à necessidade de parecer normal em outras paragens, pedirei "aquele pão".
Quanto a Ricardo Reis e "todo o programa", ando a reler "cadernos"dos anos 90 e que actualidade!!!
Também não "darei a volta à biblioteca": resta-nos o sedimento de tanto!
Bjinho da bettips

Anónimo disse...

Já agora, que falei bastante, acrescento: o pastor era de Monchique, sorria há 20 anos... Eu pasmei os meus sonhos a conversar com ele.
A pastora era do Alto Minho, há mais de 10 anos: também com ela soletrei o amor dos bichos e a ligação da terra (era emigrante e voltou).
Coisas que enriquecem almas.
As nossas.
Bettips

legivel disse...

... aqui por estas bandas ainda há vianinhas mas... os fornos de lenha eram uma vez, salvo uma ou outra excepção.

É uma desgraça a terminologia que invadiu as padarias. Um dia destes (que me calhou comprar o pão) distraido pedi alto e bom som "seis bolas e uma raquete". Do outro lado da rede, a padeira retorquiu perguntando "mas vem jogar ténis de mãos vazias?!"

Abraço e sorrisos.

Rosa dos Ventos disse...

Só tu, Legível!
O teu humor é uma prenda matinal!:-))

Abraço

Anónimo disse...

Anda por aqui o Pavlov|Não é que à conta das vianinhas, que também só conheci na Nazaré, me lembrei da batata doce assada pelo padeiro (também na Nazaré) no seu forno gigante e a punha loirinha por dentro e a pingar um melzinho de sabor único ? Ainda dou cabo do computador com esta torrente de saliva.Ai os meus sabores de infância, esquecendo os amargos anos em que andei no Liceu porque almoçava papo-secos da véspera com compotas caseiras e outras coisas que punham a cabeça em água a minha Mãe para inventar recheios para os almoços de cada um dos três filhos.O MORES! Abraço Kinkas

Rosa dos Ventos disse...

Na Nazaré comia as vianinhas com manteiga, como a Maria, com marmelada, como a do Hotel Bragança e com doce de tomate que a minha mãe fazia "às toneladas", provavelmente por ser o que ficava mais em conta! :-))
Não me lembro da batata doce,amiga Kinkas...
Prometo não voltar a falar tão depressa dos sabores da infância, não vá o teu computador avariar!:-))

Abraço

bettips disse...

Já calculava que os olhos iam fugir e fugiam para as mesmas belezas... Bjinho

Vieira Calado disse...

O livro que refere, para mim,
é o mais interessante.

Beijoca

R. disse...

Gostei particularmente do trecho que escolheu. Identifico-me bem com o desconforto de começar o dia em sobressalto, atarantada pela pressa que é incompatível com a letargia matutina. Também nisso os livros são 'saborosos': tantas vezes espelham o nosso próprio sentir.
Continuação de boas leituras e de redescobertas gastronómicas :)

Lídia Borges disse...

Só conheço uma padaria que ainda as faz.

Vou lá quando tenho mais tempo. Trazem-me lembranças boas da infância.

Um beijo

Turmalina disse...

Hummmm...apetitosas essas vianinhas...um dia desses gostaria de amanhecer como Ricardo Reis :o)

Tite disse...

Agora que foste para a praia é que me deu para bater de novo à tua porta.

E não é que me fizeste crescer água na boca com esta foto?

Pois é, hoje é tudo de plástico. Se falarmos na fruta vendida nos supermercados temos a triste sina de a comprar já cozida pelos muitos frigoríficos por onde passam até chegar às nossas mãos.

Pronto... eu não voltei para chorar sobre o leite derramado.

Qualquer dia a gente volta a falar-se.

Beijosssss