segunda-feira, março 08, 2010

Duas mulheres na cidade...

Um post lido ontem em "O Casario do Ginjal" do Luís Milheiro lembrou-me um episódio que tinha vontade de aqui contar e que só a preguiça o tem impedido porque o texto vai ficar longo.
Descia com a minha cunhada mais velha, que além de cunhada é sobretudo uma grande amiga desde o tempo do liceu, do Príncipe Real para S. Bento, quando deparámos com imensa tralha a atafulhar o estreito passeio por onde caminhávamos, à saída de um prédio antigo onde se realizavam obras num dos apartamentos.
No meio do lixo destacavam-se dois enormes sacos de plástico muito sujos e cheios de livros.
Com a cumplicidade e a curiosidade que nos une, começámos logo a vasculhar para descobrirmos que tipo de livros seriam aqueles.
Entretanto desce um operário que olha com espanto aquelas senhoras armadas em "trapeiras".
Perguntámos-lhe, com alguma insegurança, se tudo aquilo seria para deitar fora, ao que ele respondeu que se ali estava era porque nada prestava e seria esse o seu destino. Afastou-se e nós continuámos a nossa "investigação".
Perante o nosso espanto, encontrámos:
17 volumes da obra de Eça de Queirós, da Livraria Chadron, de Lello & Irmãos Lda. , cujas datas de emissão iam de 1920 a 1928, encadernados em percalina vermelha;
5 volumes em francês das Obras Completas de Lamartine, de Pagnerre - L. Hachette et Cie. - Furne et Cie., de 1855 a 1858 (em numeração romana );
2 volumes da obra de Júlio Verne, em português, de 1887 e 1888, de David Corazzi, Editor e um volume de 1890 já da Companhia Nacional Editora, devido ao encerramento ou venda da editora anterior.
Os três volumes em percalina verde.
Ainda havia outros livros que não vale a pena referir para não alongar excessivamente a narrativa.
De forma alguma iríamos deixá-los ali, sujeitos ao despejo num ecoponto ou numa lixeira juntamente com tudo o que se acumulava ao fundo da escada e no passeio.
Embora cansadas, lá carregámos com os sacos ainda umas centenas de metros até ao apartamento da minha cunhada e limpámos-lhes o pó e as teias de aranha.
Agora já se encontram em minha casa, à espera do Verão, para, com vagar, decidirmos o que fazer a este espólio.
Diante de um crime como este, porque deitar livros para o lixo deveria ser considerado crime, interrogámo-nos:
- Quem teria sido capaz de cometer tamanha barbaridade?
Como é óbvio os operários apenas executam ordens e, pelos vitsos, nenhum deles tinha gosto pela leitura...
Eu bem avisei que isto ia ficar longo, mesmo com muitos cortes na narrativa e nas considerações tecidas à volta do rocambolesco episódio.
As imagens ilustram os factos e o título procura lembrar o dia que se comemora hoje.




23 comentários:

JOÃO SENA disse...

Mesmo em dias de chuva há, às vezes, um raio de sorte!
Inveja?
Muita. Mas muito feliz pelo magnífico achado.
Se alguns exemplares estiverem muito humidos metê-los em arroz é uma boa solução.
Bjcs e parabéns!
JS

Alberto David disse...

Inveja redobrada, só a duas mulheres é que isto poderia acontecer. Parabéns, sei que irão ser bem tratados.

Um abraço

Justine disse...

Posso completar o título? "Duas mulheres na cidade... salvando livros de uma morte inglória"
Agora,limpos e como novos graças às slvadoras, aí estão eles prontos para continuarem a encantar e a fazer sonhar!
Beijo

Tite disse...

Eu também mudaria o título para:

Duas mulheres cultas na cidade em dia de sorte para elas e para os livros

Só pode ter acontecido a limpeza de uma casa de alguém culto que não deixou herdeiros à sua altura.

Beijosssss

Maria disse...

Ainda bem que foram salvos. Veio-me à memória, por momentos, o crime que a Leya fez um dia destes...

Um abraço forte, hoje, para ti.

Há.dias.assim disse...

E este foi um dia de sorte...
ficará uma história para contar aos netos.

Maria P. disse...

Tesouros salvos.

Beijinho, Mulher:)

Pitanga Doce disse...

Não sei não, mas me arrisco a dizer que acontecem enganos durante obras e demolições. Quem teria coragem de jogar no lixo essas preciosidades? Vais ver que na semana que vem vai alguém desesperado ao programa da "Dona Fátima" a procurar os livros que eram para guardar no sótão. hehe

Sabes como é Rosa, tenho sempre que rir de alguma coisa. hehe


beijinhos da menina Pitanga

fj disse...

há dias assim!

aos q cometem tamanha barbaridade para bem de outros...neste caso de outras, sortudas!!!
abraço



(prá próxima posso vou ctg...)

mlu disse...

Mulheres com sorte! Livros (que são quase seres vivos) com sorte!

Um abraço.

Anónimo disse...

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sendyourlove disse...

Um beijo especial e desejos de um dia bem passado.
Até o sol a veio beijar hoje.

:-)

Isa GT disse...

Também não sei, como é que alguém é capaz de fazer tal coisa.
No prédio antigo onde morei, também deitaram fora, 2 sacos cheios de livros. Claro que não são tão antigos e valiosos mas hoje, 16 anos depois, ainda os tenho e, comigo, já mudaram de casa duas vezes.

Luis Eme disse...

a última vez que vi um saco com livros na rua, ia com a minha mulher e filhotes, que torceram o nariz a eu ver o que continham (estes preconceitos...)

e lá segui. mais tarde, já sozinho, voltei ao local, mas só encontrei o sitio...

fiquei com pena, porque estava expectante sobre o que estaria dentro do saco (grande), por isso voltei ao "local do crime".

só espero que tenha tenha levado o saco, tenha aproveitado os livros.

abraço Rosa

Catarina disse...

Como eu teria gostado de ter estado convosco nessa altura!
Um abraço

Rosa dos Ventos disse...

Cara Beta
Se voltares a passar por aqui agradeço a gentileza das palavras!

Abraço

Rosa dos Ventos disse...

Sabes que já me lembrei disso, Pitanguinha? :-))

Abraço

Dina disse...

Eram meus!! Foram os incultos dos pedreiros que os deitaram fora sem eu lhes ter dado autorização...
(pode ser que pegue...)

Bartolomeu disse...

A descer do Principe Real para São Bento, à porta de um prédio... seria na Travessa do Abarracamento de Peniche... a antiga morada do Saudoso Professor Agostinho da Silva?

arabica disse...

Bela herança do acaso! :)

Sortudas!

Beijos, Rosa, com pena de não te ver dia 20 :((

Duarte disse...

Bonitos exemplares, que merecem todo tipo de louvores, sem esquecer o esforço na odisseia.

Tenho em casas duas peças que salvei dum contentor. Não foram mais pois já tinham azeite e restos de alimentos... que criminosos!

Conclusão:
pessoa culta e cuidadosa, que reuniu em casa algumas jóias da literatura universal, que uns herdeiros insensatos desestimaram, e que uns operários incultos não souberam valorar. Lamentavelmente há muito disso.

Un abraço

Ida disse...

Querida Senhora dos Ventos,

certamente foi algum/a solitário/a amante de literatura que morreu de repente e sem herdeiros ou cujos herdeiros têm índole de operário de obra e foi tudo escada abaixo, dar direto aos vossos olhos, felizmente.

Adorei a história... manda mais!

Abraço ensolarado de primavera!

Claudia Sousa Dias disse...

ainda bem que os salvaste!

mas se entre algum daqueles operários estivesse alguém que tivesse lido pelo menos um único livro do Eça, garanto-te que não teriam ido para o lixo.nem sequer os terias apanhado. Santa ignorância!

é pena estas notícias não irem para as primeiras páginas dos jornais.

Mas acho que as pessoas que lêem são emn geral mal vistas pela população que não pega sequer num livro, nem sente curiosidade.

CSD