domingo, setembro 07, 2008

Na manhã azul...

Na manhã azul o som ouviu-se inconfundível.
Apurei o ouvido, não tinha dúvidas.
Fui à varanda, o som ouvia-se mais nítido e depois o homem surgiu com a bicicleta à mão, com aquele ar de senhor do mundo, assobiando no seu realejo.
Era um amolador de facas e tesouras , daqueles que também concertam chapéus e alguidares...
E logo a minha memória evocou a minha mãe e avó paterna a procurarem as facas que já não cortavam bem, assim como as tesouras.
E assistia com espanto à obra de arte que era gatear um prato de estimação ou um alguidar enorme onde a carne para as chouriças ficava em vinha de alho até ficar no ponto...
Agora tudo tem um curto prazo de validade, a minha avó e a minha mãe já não procuram nada e eu nem sei fazer chouriças...
E logo ontem, que deitei para o lixo uns pratos rachados...
E pensei que este amolador na manhã azul era um poema!
Ouvem-no?

32 comentários:

Escutador de Almas disse...

Ouço, ou melhor não ouço, mas bem precisava de ser concertado!

Rosa dos Ventos disse...

A partir do teu comentário verifiquei que cometi um erro imperdoável!
Devia ter escrito CONSERTAM.
São as chamadas palavras homófonas...
Não sei como é que me escapou! :-((
Também estou a precisar de conserto!

Abraço

Átila disse...

Ouço , ouço muito bem o amolador através da sua flauta aflautada. Quando surgia o seu chamamento logo a minha mão me mandava com as facas e os sombreiros para consertar . Gostava muito de conversar com ele e admirava a sua máquina .
Que saudades eu tenho do largo onde morava ...

mc disse...

Achei-vos graça, porque o amolador é visita bastante assídua nos meus lados. E já pude verificar que faz boa obra.

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Luis Eme disse...

o que escreveste, sim, é prosa poética, Rosa.

De vez enquanto passa um à minha rua, a adivinhar chuva (e acertam quase sempre, devem ver o boletim meteorológico na net...).

lembro-me de ver pratos "gateados", talvez na casa da avó...

bjs

Anónimo disse...

Recordar é viver,frase mais do que estafada,mas esta recriação/recordação,fez~me chorar sério (eu que dizia já não ter lágrimas molhadas),mas fez-me bem.
Abraço Kincas

Escutador de Almas disse...

Pois é, tive dúvidas, estive para ir ao velho Porto Editora, mas perante a mestra...e madrinha!

Os mestres também se enganam!

Eu já nem com conserto lá vou...!

Bjs

goiaba disse...

Também há tempo ouvi um amolador no meu bairro e achei que era uma raridade. Se calhar ainda os há muitos por Lisboa . Talvez valesse a pena começar a juntar as facas, os alguidares, panelas e chapéus de chuva. Um dia, voltaremos a não deitar tudo fora ...
Abraço

Rosa dos Ventos disse...

Pois é, Escutador, as madrinhas podem enganar-se mas aos mestres não se pode perdoar certos erros e este foi de palmatória!

Abraço

Rosa dos Ventos disse...

Afinal estou a ver que há por aí mais amoladores do que eu pensava, segundo o M.C. e a Goiaba.. :-))
São então poemas ambulantes!

Abraço

Rosa dos Ventos disse...

Caro Luís
Por aqui são os vendedores de sementes de nabo que adivinham chuva, mas penso que a chuva também está associada aos "conserta chapéus", por isso mesmo... :-))

Abraço

Rosa dos Ventos disse...

Chorar porquê, querida Kincas?
Precisas de mandar consertar os óculos! :-))

Abraço

Justine disse...

Sim, Rosa, ouço-o perfeitamente através das tuas belas palavras.E das minhas memórias, que tu avivaste...

Teresa disse...

A minha mãe dizia que o amolador anunciava chuva.Hoje também encontrei um de manhã.Será que vai chover?

Rosa dos Ventos disse...

Talvez, Teresa!
Já hoje o ouvi de novo, na manhã azul1 :-))

Abraço para o lado de lá da cidade

Patti disse...

A última vez que o ouvi, eram dois ciganos que assumiram o papel do tradicional amolador. O problema não foi em serem ciganos, foi em serem ladrões no preço do serviço.
Resultado: discussão pegada no meio da rua e não paguei o que me pediram.

O apito do amolador é sinal que vem ai a chuva.

Patanisca disse...

Estou de volta com um pedido de desculpa por não ter avisado que ia tanto tempo de férias. É visita rápida. Voltarei de novo para estar com tempo.

dona tela disse...

Foi hoje a minha rentrée!

Beijinhos.

victor disse...

Mas a mensagem você conseguiu passar. Continue assim. erros acontecem. está ótimo. abraços

victors.gomez -
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PNETliteratura disse...

Talvez gostem de visitar este site :-)

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Deusa Odoyá disse...

Olá minha nova amiga.
passei para conhecer seu blog.
Voltarei mais vezes.
Beijos da nova amiga.
ReginaCoeli.

Multiolhares disse...

sem duvida que e a poesia dos tempos, na nazare aparecem muitas vezes.

Rosa disse...

O Amola Tesouras, com a sua bicicleta preta, armada com uma mó e um estojo de ferramentas na bagageira traseira, faz parte do imaginário que povoa a minha distante infância. Ao som caracteristíco da sua flauta, as dona-de casa juntavam-se aos magotes, enfeitadas com aqueles aventais que ainda por aí se vêem, e entregavam-lhe toda a sorte de facas e tesouras para que o mesteiral lhes devolvesse a agudeza de antanho.

Eu, por essas alturas, colava o nariz à janela e observava as faíscas que se soltavam da roda de pedra, à medida que o sujeito lhe conferia a rotação necessária para as afiar.

É uma figura, igual a outras tantas, que faz parte do imaginário da infância de muita gente da minha geração, bem como as carroças de mudanças e fretes, a prática de matar galinhas e esfolar coelhos nas praças públicas e os burros defecando livremente no chão enquanto aguardavam que os donos os descarregassem nas feiras e mercados.

Enfim, tempos em que a ASAE não tinha sequer sido sonhada e que não voltam mais...

Vanda disse...

Rosa,

Ouço-o tão bem!

Aqui na minha pequena aldeia (uma freguesia do concelho de oeiras) ainda os antigos se sentam ao sol, os vasos de flores brigam por espaço nas ruas e o amolador passa, hesitante e melancólico...

Lembro-me de noutros tempos de Lisboa, o mesmo acontecer e a minha avó, ao ouvi-lo, dizer que ele estava a chamar a chuva...seria por consertar as varetas partidas dos chapéus? :)


Era um homem triste e pardacento, cansado pelas pedras das ruas percorridas...

O som, esse, parecia nascer-lhe dos olhos...


Beijinhos

pin gente disse...

ouço!
é uma das recordações que me ficou de miúda, em lisboa.

beijo

Rosa dos Ventos disse...

Com testemunhos tão preciosos, sobretudo da Rosa e da Vanda, até fiquei com vergonha do que escrevi...
Mas agradeço a todos as vossas contribuições e comentários!

Abraço

LB disse...

Ouvi-o agora... :)

Beijinho

Patanisca disse...

Pessoalmente não conheci nenhum. Mas ouvi falar muito. Em pequenita ia muito com o tio Gervásio passear para a mata de Benfica onde ele se encontrava com o Rodrigo (que foi alferes no ultramar da companhia do papai)e gostava muito de ouvir contar as histórias do papai e outras histórias, memórias de coisas verdadeiras. Ele contava o que se lembrava quando era pequenino, talvez da idade que eu tinha então: era o amola-tesouras, a mulher da fava-rica, a língua da sogra, os azeiteiros saloios, o geladinho fresquinho, os aguadeiros, os leiteiros das vacarias das quintas de Benfica e outras lembranças. E eu ouvia aquilo tudo com a atenção emocionada que os putos de agora dão aos filmes de magia.

Rosa dos Ventos disse...

Querida Patanisca
Os miúdos de agora, salvo raras excepções, têm magia tecnológica.
Embora muito jovem ainda foste beneficiada por essa magia repassada nas histórias dos avós, tios, pais e até irmãos mais velhos...

Um abraço

redonda disse...

Sim. Perto da minha casa, costuma passar um, ao fim-de-semana :)