domingo, maio 31, 2026

Poesia ao domingo

 Dez Reis de Esperança



Se não fosse esta certeza

que nem sei de onde me vem,

não comia, não bebia,

nem falava com ninguém.

Acocorava-me a um canto,

no mais escuro que houvesse,

punha os joelhos à boca

e viesse o que viesse.

Não fossem os olhos grandes

do ingénuo adolescente,

a chuva das penas brancas

a cair impertinente,

aquele incógnito rosto,

pintado em tons de aguarela,

que sonha no frio encosto

da vidraça da janela,

 não fosse a imensa piedade

dos homens que não cresceram,

que ouviram, viram, ouviram,

viram e não perceberam,

essas máscaras selectas,

antologia do espanto, 

flores sem caule, flutuando

no pranto do desencanto,

se não fosse a fome e a sede

dessa humanidade exangue,

roía as unhas e os dedos

até os fazer em sangue.


António Gedeão, in Poesias Completas (1956-1967)

sexta-feira, maio 29, 2026

Música à sexta

E deu-me a nostalgia da música deste filme, do tempo em que os filmes franceses me encantavam



 

quinta-feira, maio 28, 2026

SNS

 Sempre tive acesso ao meu Centro de Saúde sem qualquer problema.

A última consulta que tive foi em março para renovação da carta de condução, de resto solicito por mail ao médico de família os medicamentos ou alguns exames solicitados por outros médicos e até ontem tudo correu bem.

Ontem, perante o agravamento da tosse, telefonei para agendar uma consulta de urgência, a instrução que recebi de uma voz anónima foi de premir a tecla 1. Assim fiz, de novo uma voz anónima manda-me ligar para a Saúde 24 e seguir as instruções.

E o que é que eu fiz? Liguei para uma clínica privada, marquei, sem problemas, consulta para um médico conhecido que até tem acordo com a ADSE e assim resolvi o assunto.

Penso que é mesmo uma estratégia para "desampararmos a loja"!

Claro que isto nada tem a ver com o facto de não aceitarem no Hospital de Faro uma grávida em trabalho de parto, por não ter telefonado primeiro para a Saúde 24. E assim foi obrigada a deslocar-se 70kms até Portimão, onde felizmente o parto ocorreu sem problemas, mas podia ter corrido mal.

Estão deliberadamente a "matar" o SNS!

terça-feira, maio 26, 2026

Desabafos





 


Ainda não senti a diferença!

Então de noite nem se fala.

Além destes rebuçados ditos "milagrosos",  tenho usado mel, limão e Vick!

Já não sei o que fazer mais!

domingo, maio 24, 2026

Poesia ao domingo

 Imagem


Este é o poema duma macieira.

Quem quiser lê-lo,

Quem quiser vê-lo,

Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.


Floriu assim pela primeira vez.

Deu-lhe um sol de noivado,

E toda a virgindade se desfez

Neste lirismo fecundado.


São dois braços abertos de brancura;

Mas em redor

Não há coisa mais pura,

Nem promessa maior.



Miguel Torga, in Antologia Poética

sexta-feira, maio 22, 2026

Música à sexta

Com um belo poema de Manuel Alegre, Adriano canta o mês das giestas.
Uma canção que se pode incluir no grupo das canções de intervenção política.



 

quarta-feira, maio 20, 2026

Multidões e emoções

 O almoço já tinha terminado, mas ficámos quatro ou cinco à volta de uma mesa.

A conversa recaiu naturalmente nas cerimónias dos dias 12 e 13 de maio.

Uma das amigas assistiu ao terço e à procissão das velas na noite de 12 e esteve na missa com o Adeus à Virgem no dia 13.

Falou da emoção que sentiu nos dois momentos, no arrepio que sentia com o cântico do Adeus à Virgem e com a imensa multidão, 250.000 mil à noite, um mar de luz e um pouco menos no dia 13.

Eu disse que todos os ajuntamentos de multidões são emocionantes, falei da emoção que sentia ao ouvir o Hino Nacional, quando um ou uma atleta se sagrava campeão/ã, ou noutras situações, ao ponto de chegar a deitar umas lágrimas, eu que as tenho congeladas há muito.

Todas concordaram com essa emoção, mas algumas estavam mais inclinadas para os cânticos religiosos.

Às tantas, declaro que me emociono com a Internacional Socialista, com o Avante, Camarada e o Acordai de Fernando Lopes Graça que algumas desconheciam.

Ia caindo o Carmo e a Trindade!

O que vale é que tinha pelo menos uma do meu lado.

E convosco, o que vos emociona do ponto de vista musical, associado a multidões?

terça-feira, maio 19, 2026

Prémios Nobel

 Com a simpática participação de dez leitores, incluindo um anónimo, chegámos ao fim do desafio!

Agradeço a vossa participação.

O prémio da melhor dica vai para o Pedro Coimbra que não perde uma oportunidade de referir Trump! :))

Para os que tiveram dificuldade em identificar alguns dos títulos, aqui vai a ordem dos livros de autores galardoados com o Prémio Nobel da Literatura, era essa a afinidade entre eles. Alguns estão repetidos.

De cima para baixo:


Annie Ernaux - 2022

Gabriel Garcia Marquez - 1982

Patrik Modiano - 2014

Gabriel Garcia Marquez

Camilo José Cela - 1989

Thomas Mann - 1929

Albert Camus - 1957

José Saramago - 1998

Yasunari Kawabata - 1968

Gao Xingjian - 2000

Patrik Modiano

Annie Ernaux

Le Clézio - 2008

Alice Munro - 2013

Hermann Hesse - 1946

Abdulrazak Gurnah - 2021

Mario Vargas Llosa - 2010

J.M. Coetzee - 2003

Olga Tokarczuk - 2018

Vargas Llosa


Este desafio decorreu do facto de me ter inscrito no Clube de Leitura da Biblioteca Municipal de  Ourém que, em boa hora, decidiu desenvolver esta atividade.

O primeiro encontro será a 28 de maio e o tema é Prémios Nobel, daí ter ido até à outra casa procurar o que havia à mão.

Tenho outros, mas estão no 1º andar e não estive para me cansar.

Pesquisei todos os galardoados desde 1901 até 2025 e, além de ter encontrado anos sem o prémio ter sido entregue e anos em que houve dois galardoados, não sei como, tenho que pesquisar, fiquei a saber que Sir Winston Churchill também recebeu este prémio em 1953 e verifiquei, para grande admiração, que o Brasil, com uma literatura riquíssima, nunca foi contemplado.

O tema dá pano para mangas, veremos que autores irão surgir.

Eu tenho muito presentes o Nobel de 2025, O Tango de Satanás, do húngaro Lászlo Krasznahorkai, As Vinhas da Ira de John Steinbeck, americano, de 1962 e Levantado do Chão do nosso José Saramago, de 1998.

segunda-feira, maio 18, 2026

Desafio

Há quanto tempo não temos um desafio?



 

Uma pergunta com resposta fácil!

O que é que estes livros têm em comum?

Não deem  logo a resposta de chapa! :))

domingo, maio 17, 2026

Poesia ao domingo

 Os Remos


Que rumor de remos

De que negra barca


Ouve-se tão perto

sem se ver a água


Vem Caronte ao leme

Ou tudo uma farsa


que ninguém encena

que ninguém aplaude


Em torno parece

adensar-se o nada


O que mais inquieta

já não tem palavras


Mas ainda resta

saber de que margem


ouvimos os remos

não vemos a água


David Mourão-Ferreira, in "Quatro Tempos"

sexta-feira, maio 15, 2026

Música à sexta



Para todos os países e ou regiões onde impera a guerra , a ditadura, as perseguições, a morte.

quinta-feira, maio 14, 2026

Quinta Feira da Ascensão/Dia da Espiga





Hoje é Quinta Feira da Ascensão, feriado em bastantes municípios do país, por se tratar de uma festa religiosa muito importante no calendário dos católicos. Ainda agora a tradição  de colher o ramo da espiga se mantém, sobretudo nesses municípios em festa. 
Quando era criança lembro-me desse ritual, de se colocar o Ramo da Espiga atrás da porta para a nossa casa ser abençoada e de aí permanecer até ao ano seguinte.
O significado de cada elemento encontra-se na imagem.


 A imagem foi retirada da Net

terça-feira, maio 12, 2026

Apagamentos

 Tinha um texto muito bem preparado sobre o turismo religioso e o que significa na terra onde vivo, penso que todos sabem que resido em Fátima, sou fatimense por adoção e sem qualquer ligação à economia local.

Só que, numa tentativa de adicionar novos blogues, tanto cliquei que apaguei todos os que tinha, agora para os recuperar vai ser o cabo dos trabalhos e fiquei sem vontade de introduzir o tal texto e aborrecida com a minha inépcia!

Nem Nossa Senhora me vai valer, porque está demasiado ocupada com as preces dos peregrinos.

Quanto maior é a crise mais se reza!

segunda-feira, maio 11, 2026

Leituras


 


Rómulo Castelo, um pianista e professor de piano virtuoso, dedica-se inteiramente a buscar a perfeição na sua arte.

Tem em casa um estúdio à prova de sons exteriores e, por detrás da porta blindada, refugia-se todas as manhãs, distanciando-se de um casamento problemático e de um filho que jamais corresponderá aos seus ideais de excelência enquanto ensaia, à exaustão, aquela que é considerada a peça intocável de Liszt, o Rondeau Fantastique.

Só que um terrível acidente, em que ficou com a mão direita decepada, vem interromper esta carreira brilhante. 

Daí para a frente será uma luta constante na procura de retomar o estatuto que tinha como professor na universidade, criando conflitos com alunos, colegas e a própria direção e aguentando "a dor fantasma", que é a dor presente na mão ausente, terminando só,  destruído e endividado, por ter acreditado que uma mão "robótica" iria substituir a mão perdida.


Gostei bastante da obra e, embora tenha encontrado na sua escrita marcas muito presentes, como é  óbvio, do português do Brasil, mostra que em Português nos entendemos.

Este romance foi "Prémio Literário José Saramago 2022".

domingo, maio 10, 2026

Poesia ao Domingo

 Amor como em casa


Regresso devagar ao teu 

sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que

não é nada comigo. Distraído percorro 

o caminho familiar da saudade,

pequeninas coisas me prendem,

uma tarde num café, um livro. Devagar

te amo e às vezes depressa,

meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,

regresso devagar a tua casa,

compro um livro, entro no 

amor como em casa.


Manuel António Pina ( 1943 - 2012 )


sexta-feira, maio 08, 2026

Música à sexta




O Cante Alentejano nunca é instrumental, mas estes rapazes conseguiram aproximar-se do Cante, de forma original.
Veremos como se vão sair!






 






quinta-feira, maio 07, 2026

A importância das janelas nas aprendizagens

 Vou vender, como ouvi na Antena 3, logo de manhã.

Uma universidade chinesa, não captei qual, publicou um estudo onde se demonstra que os alunos, colocados perto de uma janela com uma bela paisagem, têm melhores resultados do que aqueles que ficam no meio das salas.

Pasmei, porque como professora sempre achei que as janelas eram fatores de distração.

Será uma chinesice que só funciona na China ou funcionará em qualquer sala de aula?


quarta-feira, maio 06, 2026

As Vozes da Rádio

 Tenho vários rádios a pilhas que não funcionam, as pilhas estragaram-se por falta de uso  e o rádio/despertador da mesa de cabeceira nunca funcionou bem a não ser como despertador, coisa que eu detestava.

Nunca precisei de despertador para acordar, a não ser a desoras, tipo 4/5 da manhã, já o meu companheiro usava e abusava de despertadores, mesmo no plural, um não chegava.

Ouvia música no carro e como andava muito, não lhe sentia a falta em casa.

Com o meu novo estilo de vida, pedi, pelos anos, ao meu filho um rádio portátil e ele ofereceu-me um multiusos. Tem um ótimo som, tem uma lanterna, tem uma bússola, tem um botão de alarme, se eu me perder na floresta (palavras do rapaz), tem um dispositivo para carregar o telemóvel, caso a luz falhe, tem bateria que dá para mais de um mês e carrega-se como um telemóvel.

Ligo-o logo que acordo, faz-me companhia durante horas e passei a conhecer as últimas novidades da música portuguesa que é a que passa nos emissores que capto.

Enfim, é o ideal para situações de emergência, tipo "apagão" ou outra "Kristin".

segunda-feira, maio 04, 2026

Vizinhos

 Há dias ouvi martelar no corredor, como ainda não conhecia nenhum vizinho do andar, conheço apenas algumas Irmãs da Comunidade Religiosa que ocupa todo o 3º piso, abri a porta e dei-me com um jovem às voltas com a fechadura da porta.

Cumprimentei-o e apresentei-me, um pouco embaraçado também se apresentou, como não acrescentava mais nada perguntei-lhe se vivia sozinho.

Afinal vivia com a mulher e filhos, não sei quantos.

Disse-lhe que vivia sozinha e que, se lhe tocasse à campainha, ficava a saber que precisava de ajuda.

Sorriu, mas não respondeu que estivesse à vontade.

Esta vivência de se ignorar quem vive ao nosso lado ou em frente, não me agrada de todo.

domingo, maio 03, 2026

Poesia ao domingo

 Para Sempre


Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite, 

é tempo sem hora, 

luz que não apaga

quando sopra o vento

e a chuva desaba, veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe na sua graça, 

é eternidade.

Por que Deus se lembra

 - mistério profundo -

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo, 

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará para sempre

junto do seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.


Carlos Drummond de Andrade, in " Lição das Coisas"