segunda-feira, janeiro 13, 2014

Abyssus abyssum

A tempestade que assolou a costa portuguesa e não só, na semana passada, e um telefonema de 56 m com uma cunhada que vive entre Paris e Lisboa levaram-me a recordar o belíssimo mas trágico conto de Trindade Coelho "Abyssus abyssum".
Veio à baila este conto porque ela não se lembrava do nome e como ia ver um filme intitulado "La Gouffre" queria lê-lo antes, para poder constatar se o realizador, seu conhecido, teria ido "beber" algo ao referido conto.
Eu tinha-o bem presente e ali ficámos a dissertar sobre a atracção fatal que muitos têm pelo perigo, sobretudo pela água.
Falámos das espectaculares fotos do mar em fúria, da ousadia  dos fotógrafos para as captarem e ainda da morte de alguns aventureiros que não resistiram ao apelo das águas.
Os dois pequenitos, irmãos, protagonistas do conto começam por desobedecer à mãe, desceram até ao rio, meteram-se no barco e, finalmente, quando a tarde cai e no céu surge a primeira estrela, eles começam a persegui-la para a alcançarem. O seu destino está marcado - serão engolidos pelas águas.
Aqui ficam alguns excertos para aguçar o apetite a quem gosta do género ou relembrar quem conhece o conto.

"Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio, que nessa manhã deslizava muito sereno, esverdeado de águas, espelhante sob aquele céu imaculado.
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Já reparaste no barco, ó Manel?
- Tão bonito!
Os dois riram.
- Parece pintado de novo...E nem mexe, repara!
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Dentro daquele adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres de admoestações alheias, sozinhos, independentes.
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Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcançar a estrela cujo brilho diamantino os fascinava. Tão linda!...
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O pequeno barco vogava agora à mercê da corrente, sem impulso algum estranho. dentro dele, a música levíssima das respirações dos dois pequenos adormecidos...
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Nesse mesmo instante... - e mais longe do que nunca - ... a estrela feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!
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Trindade Coelho In Os Meus Amores

Nota: Ainda não foi desta que me deixei seduzir pelo silêncio...também é uma atracção, por vezes, fatal!

26 comentários:

Maria disse...

Trindade Coelho e Os meus amores que bela lembrança Rosa...ao tempo que não ouvia falar nem do autor nem da obra...magnífica aliás! obrigada
Maria

ematejoca disse...

Salmos 41.8.

Um abismo atrai outro

ou

Uma desgraça nunca vem só

Ler Trindade Coelho não é cair num abismo, é sim, um grande prazer.

Os Meus Amores, apesar de vélhinho, guardo-o como um tesouro.

Boa semana, querida amiga!

São disse...

Assim que li o título do teu post, lembrei-me imediatamente desse conto(que foi o que me levou a ler o livro, além de um outro intitulado "A Encomenda" «?»).

Tudo isto me fez recordar uma colega minha que era atraída pelo abismo e que, talvez por isso, atraía sobre si situações estranhíssimas (algumas das quais eu testemunhei).

E não te deixes seduzir pelo silêncio, até porque , geralmente, está prenhe de perguntas, sons e ....

Bom resto de semana

Majo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Majo disse...

Na infância do meu irmão, também houve um rio, um barco, um amigo da mesma idade e uma mãe que, de vez em quando, consentia na brincadeira e passava as tardes aflitíssima.

Uma tremenda e funesta lição de moral. Trindade Coelho no seu estilo ímpar.

Justine disse...

Não li o conto, mas com a tua apresentação, não resisto:-))
Abracinho

Rosa dos Ventos disse...

Esse conto chama-se "Para a Escola", São!
Mas fala de uma "encomendinha"! :)

Mira disse...

Rosa, gostei de ler sobre Trindade
Coelho, tão esquecido,que pena...
beijos amiga

Graça Sampaio disse...

Já o li há tantos anos que já nem me lembrava... Também li o dito da "encomendinha" que é uma ternurinha! Como está carregadinha de bons autores a nossa rica e completa Literatura!

luisa disse...

Uma das muitas leituras que me falta fazer...

maria disse...

Não conheço o conto e nem o autor, mas fiquei curiosa.

Abracinho :)

Rui Pascoal disse...

Não me parece que tenha lido esse conto, mas também tive os meus amores.
:)

Flor de Jasmim disse...

Não me recordo de ler esse conto, mas li e gosto de ler Trindade Coelho.

Boa semana Rosa

beijinho e uma flor

Pedro Coimbra disse...

Não conheço.

Fiquei abismado com as imagens que vi do mar em fúria.

Beijinhos

Catarina disse...

Ou a memória me falha ou nunca ouvi falar de Trindade Coelho.

Já aconteceu ter feito tal afirmação com um outro escritor português, encontrando, dias mais tarde, um livro dele na minha estante.

Luis Eme disse...

e ainda bem!

abraço Rosa

Rui Espírito Santo disse...

Não conhecia ! :((
Sou um péssimo "leitor de literatura" ! É difícil ser-se completo, não é ? rsrsrs

Rosa dos Ventos disse...

Já estás como o PM, Rui?
"Não se pode ser "bem" em tudo"! :)
Mas lê o conto no Dr. Google, lê-se depressa e é bonito...embora com um fim trágico!

Abraço

Rui Espírito Santo disse...

Obrigado, Rosa !
Cumpriste a tua boa acção do dia e eu segui à risca o teu conselho ! rsrs
Está lido ! :))

Abração ! :))
.

Anónimo disse...

Um fim trágico! E o silêncio de quem morre nas águas!

Lilá(s) disse...

Ainda não li,mas aguçou-me o apetite!
Bjs

ॐ Shirley ॐ disse...

Gostei do que li...
Beijos, Rosa!

Janita disse...

Rosa, se não te importas vou começar pelo fim!
Ainda bem que ainda não foi desta que te deixaste seduzir pelo silêncio! A tua palavra breve, mas eficaz, as tuas postagens e ao tua presença, faz muita falta neste nosso bairro blogosférico.

Conheço Trindade Coelho, mais pelo nome, visto ser contemporâneo de Camilo Castelo Branco do que pela sua obra, da qual apenas ouvi falar, d'O ABC do Povo.
Esta resenha mostra que o autor também sentia um fascínio pelo Mar. Crio que ele teve também um fim trágico. Sabes? Vou seguir o conselho que deste ao amigo Rui, apesar de não gostar muito de fins trágicos, especialmente, quando se trata do desaparecimento de crianças.
Ainda não me recompus da triste notícia daquele adolescente que pôs termo à vida, em Braga.
Desculpa, Rosinha, mas tenho este defeito de misturar um pouco as coisas...deixo-me levar pelo pensamento e nem toda agente aprecia isso. Preciso aprender a ser mais sucinta!
Um abraço enorme, Rosa, e obrigada pela partilha.

Janita

heretico disse...



eloquente silêncio!

evocar Trindade Coelho e o seu belo conto é uma saborosa partilha.

beijo

Lídia Borges disse...


Gosto do Mogadouro. De ficar hospedada num lugar com vista sobre a vastidão dos campos, em Setembro, mesmo ao lado da Biblioteca Trindade Coelho que alberga o espólio do escritor constituído por manuscritos, livros, revistas, jornais e recortes, fotografias, objectos e peças de uso pessoal.

Obrigada pela referência.

Um beijo



Anónimo disse...

Sorri.
Fiz desta passagem a minha aula mais brilhante, durante o estágio.
Ainda hoje recordo as lágrimas nos olhos de alguns alunos.
Será que lhes trouxe algum ensinamento, desviando-os do perigo?:)

Aquele abraço, Rosinha
Nina