terça-feira, junho 17, 2008

O Largo do Coreto

Dantes o largo era o centro da aldeia. Eu, pelo menos, tinha essa impressão, mas para mim era ainda mais do que isso, era o centro do meu mundo.
Ficava frente ao edifício da escola constituído pela casa do professor e da professora ao meio e de cada lado, respectivamente, a sala de aulas e o recreio dos rapazes e das raparigas - pois então - cada macaco no seu galho, nada de misturas. Este edifício desapareceu, muito recentemente, como que por magia negra, numa noite, e o espaço serve agora de parque de estacionamento mal amanhado.
Um pouco mais abaixo da escola, do lado oposto ao largo ficava o quarteirão de casas da minha família: a de um tio que continua habitada, a dos avós quase ao abandono, a de uma tia também desabitada, mas de vez em quando arejada, a de outra tia agora morada de uma bisneta e finalmente a de uma prima.
Do outro lado da rua, que era afinal a estrada que atravessava a aldeia, um pouco mais à frente, ficava a casa dos meus pais onde vive agora a minha irmã.
Peço desculpa por vos ter feito andar de uma lado para o outro, para cima e para baixo, mas isto foi só para se siturem no espaço e perceberem por que razão o Largo do Coreto era o centro do meu mundo.
Era ainda ali que se realizavam as festas da aldeia com a banda a tocar no coreto e toda a gente à volta a apreciar a maestria dos músicos. Era e é uma terra onde a Música tem uma grande importância.
Com os tempos deixou de ser aldeia, promoveram-na a vila, mudaram-lhe a centralidade e o Largo do Coreto passou a estar praticamente deserto.
Na noite de sexta-feira, dia 13 de Junho, a Comissão de Festas dos nascidos em 1958, em boa hora, decidiu organizar ali uma sardinhada.
O largo encheu-se de novo, além das sardinhas com as respectivas batatas e salada, regadas a tinto ou cerveja, houve arroz doce, daquele arroz doce branquinho, em creme, morno, enfeitado com canela. Uma delícia...quase tão bom como o da minha sogra!
Eram dezenas e dezenas de pessoas, todas conhecidas, a saudarem-se de longe ou a chegarem-se umas às outras, com a alegria estampada nos rostos, enquanto os dos "50" se afadigavam para nada faltar nas mesas, no meio das quais cirandava a garotada.
Às tantas, passa a fanfarra dos bombeiros em exercício de treino e ali ficámos a ouvi-los até quase recolherem ao quartel.
E no coreto, afinal o que é que havia?- perguntarão os pacientes visitantes/leitores.
Um grupo de acordeonistas a tocar música bem popular.
Quando o serão terminou para nós que não vivemos lá, passámos junto da sede da banda e ainda pudemos ouvir alguns acordes...era dia de ensaio.
Gostei tanto de ver o Largo do Coreto transformado de novo no centro da...vila que não pude deixar de o registar desta forma um pouco alongada, para o meu habitual.

23 comentários:

Luis Eme disse...

o largo é sempre o centro de qualquer coisa... de qualquer mundo, mesmo pequeno...

abraço Rosa

DuarteO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
DuarteO disse...

Felizes os que têm coretos para reviver as suas memórias e afectos de infância.
Permita que lhe diga que gosto mais dos seus posts curtos, suaves, delicados, nostálgicos e imbuídos de alguma solitária melancolia.
Everybody hurts!
Sorry, pelo atrevimento!

Oris disse...

Gostei muito de ler o teu reviver das recordações de infância...

Ah....também gostei deste teu "registo" alongado...Faz bem uma mudança de vez em quando...

Beijitos, Rosa dos Ventos.

Àtila disse...

Ai se os coretos ( todos ) falassem !!!! Recordaríamos a n/infância e juventude ...
Foi o que fizeste e que melhor descreveste...

Anónimo disse...

Ah as lembranças!Na aldeia em que nasci e vivi largos anos,não havia coreto,mas construiam-se 2 para que2 filarmónicas abrilhantassem a FESTA anual.Tocavam por "turnos" e,
no final, comentavam-se os respectivos desempenhos às vezes com algum calor,entre tremoços,pevides e fiadas de pinhões.Na minha aldeia,faltaram-me os tios,tias,primos ou outro parente além de meus pais e irmãos porque nasci na "casa da professora" que comunicava com a sala de aulas por porta ao fundo do corredor e a nossa família vivia noutra aldeia,que solidão de afectos!Abraço Kincas

Teresa disse...

Tamb�m conheci esse coreto que era de facto muito bonito...

Patti disse...

Eu sou lisboeta pura.
Mas sou da aldeia por sentimento.
Coisas da vida!

Bonitas lembranças, estas!

João Videira Santos disse...

As lembranças da aldeia, o largo do coreto, esse ponto de encontro das gentes domingueiras...Que bom é ler palavras plenas de ruralidade...
(gostei e agradeço o seu comentário - "E eu quase deixei cair uma lágrima de uma mistura difícil de definir!" - para o meu poema "numa lágrima de sangue...")

Vieira Calado disse...

Na minha terra, Lagos, o largo do coreto também era o centro mundo.
Mas a estupidez dos que na época mandavam, tirou de lá o coreto e colocou... um Café!
Cumprimentos

DuarteO disse...

Porquoi pas pleurer?
Dava para um tarde de conversa!
Se desejar emaile-me e poderemos falar detalhadamente sobre o pleurer e le rire!.
Cumprimentos

Rui Caetano disse...

NO largo, encontramo-nos dispersos por todos os lados.

Justine disse...

Tantas recordações boas que a tua bela crónico me acordou na memória!
Um abraço

Maria P. disse...

Quantas recordações surgem com as tuas palavras...

:)Beijinho*

pin gente disse...

fizeste bem em alongar-te... as recordações são assim... longas e belas.

um beijo
luísa

Deusa Odoyá disse...

Oi minha estimada amiga.
Recordar sempre faz bem a nossa alma.
nos faz ver o quanto estamos vivos.
Parabens por essas suas recordações.
Beijos e fique na paz.
Obrigado pela sua visita ao meu cantinho.
volte sempre. beijos da amiga do lado de cá.

NOBITA disse...

É muito bom recordar a infância, as coisas maravilhosas que vivemos e que agora por mais tentemos não torna a ser a mesma coisa. Mas eis que de repente acontece um pequeno milagre, e quase que se recria o passado.
A vida é feita de pequenas coisas, que por mais insignificantes que possam parecer aos outros, para nós que as vivemos é muito importante.
Beijos

Pitanga Doce disse...

A família que vive nas Beiras mora assim. Uns, mesmo ali no Largo do Outeiro, que é assim que se chamam os largos nas aldeias. E outros mais abaixo, próximos a estrada onde passam os carros em velocidade. Mas as festas acontecem no Largo, no Verão. No Inverno há um Centro Recreativo mas já não é a mesma graça.

beijos Rosa

dona tela disse...

Continuo a dar notícias.

Que o fim de semana lhe esteja a correr bem.

busillis disse...

Como paciente fiquei feliz de novo com o coreto...aguardo sua visita
Abraço

Perdido disse...

A minha aldeia não tem coretos. A minha aldeia tem vias rápidas de asfalto que a ligam a outras aldeias. Por onde se passa sem saber onde se entra, onde se sai em qualquer aldeia. A minha aldeia já não existe. Procurei-a e encontrei-a noutros lugares. A aldeia que nunca tive.

Rosa dos Ventos disse...

A minha aldeia, embora com o nome de vila, ainda existe.
Reconheço-a nas casas, nas ruas, nos largos, nos nomes e alcunhas das pessoas, nos seus sorrisos e nas lágrimas que procuro acompanhar de perto...
Talvez a reconheça melhor do que aqueles que nela habitam!

Um abraço a todos

Luisa Oliveira disse...

Gosto quando escreves assim. Gosto mesmo.