quarta-feira, outubro 29, 2014

Ainda "Os Maias"

Ainda "Os Mais" porque, na verdade, reler esta obra e continuar com outras de menor fôlego levam-me a estar só na página 456.
Já me ficou para trás, há dias, o episódio das corridas no hipódromo e não posso deixar de transcrever um pequeno extracto.

"D. Maria da Cunha erguera-se para lhes falar: e durante um momento ouviu-se, como um gluglu grosso de peru, a voz da baronesa (ministra da Baviera) achando que c´était charmant, c´était beau. O barão, aos pulinhos, aos risinhos trouvait ça ravissant. E o Alencar, diante daqueles estrangeiros que não o tinham saudado, apurava a sua atitude de grande homem nacional, retorcendo a ponta dos bigodes, alçando mais a fronte nua.
Quando eles seguiram para a tribuna, e a boa D. Maria se tornou a sentar, o poeta, indignado, declarou que abominava os alemães! O ar de sobranceria com que aquela ministra, com feitio de barrica, deixando sair o sebo por todas as costuras do vestido, o olhara, a ele! Ora, a insolente baleia!"

Embora o desamor de Alencar pelos alemães me pareça, neste contexto, mais uma questão de despeito não deixa de ser significativa esta passagem que veicula de forma implícita um sentimento mais generalizado mesmo da parte do narrador com o opinativo "como um gluglu grosso de peru..."
Talvez tenha que chegar à conclusão que este desamor pelos alemães vem de longe, muito antes da TROICA nos ter atingido tão profundamente!

Nota: Se a Teresa, a "nossa" amiga da Alemanha, passar por aqui espero que não me leve a mal.

21 comentários:

Majo disse...

~ O desamor de que falas agravou-se com as guerras mundiais, quando alguns alemães resolveram tornar-se os donos do mundo.

~ Tenho feito todos os possíveis para desfazer este racismo entre jovens, mas eles afirmam que os que conhecem são muito soberbos.

~ Conheço alguns que não são antipáticos como eles referem, mas presumo que é esse feitio de superioridade que tem gerado antipatias que já existiam em 1888!


~ Então, aportuguesaste a "Troika", faz sentido, agora que eles aparecem como supervisores do orçamento do nosso Estado, afirmando que ainda é preciso reduzir o número de professores e policiais...

~ ~ ~ ~ ~ Abraço. ~ ~ ~ ~ ~

Rosa dos Ventos disse...

Pois foi, Majo!
"Troiquei"! :)

Abraço

Timtim Tim disse...

Bem pensado...

Majo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Majo disse...

~ ~ Escapou-me o pleonasmo: saiu-me antipatia em duplicado!; )
~ ~ ~ xx ~ ~ ~

São disse...

Fui ver "Os Mais" com familiares e todos gostámos do filme.

O desamor pela Alemanha vem de longe e tem razão de ser: aquele país tem os genes da dominação do Outro nos genes!

(A Teresa que me desculpe :) )

Beijinhos.

Rui Pascoal disse...

Já não falta tudo, refiro-me a ir ver o filme, quanto ao resto... vai sobrar para muitos anos.

Observador disse...

A obra 'Os Mais' é sobejamente conhecida e naturalmente elogiada.
O filme, realizado por João Botelho, é uma agradável surpresa.
Quanto à Alemanha, é bom recordar que andam, ainda, a remoer, o Tratado de Versalhes. Todos sabemos o que aconteceu ao país na sequência do Tratado.

Graça Sampaio disse...

Temos razões de sobra para não gostarmos dos alemães no geral, ou não?!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Quem pode gostar de um país que provocou duas guerras mundiais e agora quer dominar toda a Europa, sufocando economicamente os restantes países?

Janita disse...

" Os Maias" à parte, embora tenha sido o romance o cerne da questão, deixa-me dizer-te que quando manifestamos o nosso desagrado pelos alemães, alegando as guerras mundiais e esta de agora, não menos bélica: a económica...estamos a generalizar!
Metemos os alemães todos no mesmo saco!
Ora, na 2ª Grande Guerra Mundial, muitos alemães foram, também eles, vítimas da loucura de um fanático.

Agora a prepotência assumiu outros contornos. Devemos culpar quem governa bem ou mal e não culpar o povo, de uma maneira geral.
Vejamos o exemplo do que se passa em Portugal! Será que aos olhos de outros países, todos os portugueses são incompetentes, corruptos e desgovernados??

Desculpa lá, Rosa, mas isto deve ser o meu lado 'tuga' a falar!

Abraço! :)

PS. Respondendo à pergunta da Graça Sampaio. NO GERAL, NÃO!

Pedro Coimbra disse...

A Teresa é um honrosa excepção :)))
estou a brincar, não tenho nada contra os "batata fritz" :)))

Lídia Borges disse...


De facto, muito antes da Troika, a minha simpatia para com esse povo altivo, prepotente e frio é nenhuma. A História dá-me as razões que sustentam este meu sentimento.

Que me perdoe Arthur Schopenhauer que conhecia as "As Dores do Mundo"

Rosa dos Ventos disse...

Não tens que pedir desculpa, Janita!
Generalizar pode ser injusto mas o que é um facto é que também somos considerados preguiçosos, dependentes de subsídios, entre outros "mimos", pela Europa dos ricos e os portugueses em geral não são assim!
Claro que todos sabemos que há e houve alemães não coniventes com ideologias que tratam e trataram os outros povos e minorias como inferiores e que também sofreram, e de que maneira, as consequências das guerras para onde foram arrastados pelos seus dirigentes.

Abraço

tulipa disse...


Adoro a arquitectura na Alemanha

Estive em casa de 2 alemãs de gema
que me receberam nos seus lares
e, sem me conhecerem
Fui muito bem recebida
de nada me posso queixar
...
porque
não misturo as coisas
Hospitalidade
não tem nada a ver
com politiquices
...
Não gosto de política!
...
Há que ver as coisas boas
...
Aproveito para convidá-la
a voltar sempre
aos meus três cantinhos

Com temas diferentes
vou-me deixando levar

Voltarei sempre que me for possível.

Abracinho de saudade

heretico disse...

"um gluglu grosso de peru" - um saboroso must....

excelente.

Janita disse...

Boa noite, Rosa.

Pena ainda não teres aplicado ao teu blog as respostas aos comentários. Assim, ficam um bocadinho desfasadas em relação ao que se pretende dizer.

Vim ver o que tiveste a amabilidade de me dizer, relativamente ao meu comentário e não posso deixar de concordar com algumas das tuas afirmações.

Na verdade o mal de generalizarmos é medir tudo pela mesma bitola.
Se o povo alemão tem fama- e algum 'proveito'- de ser frio, e de sobrepor os interesses económicos ao lado humano e solidário, isso não significa que se aplique a todos os alemães. Por outro lado, como bem dizes, lá fora os portugueses têm fama de preguiçosos e dependentes de subsídios.
Convenhamos que, infelizmente, temos por cá muitos subsídio-dependentes, que preferem depender da ajuda do Estado do que dar o corpo ao manifesto, como é vulgo dizer-se.
Tudo é muito relativo, Rosa.

Generalizar, é que acho errado fazer-se.

Sem desculpa ( que não queres) deixo um abraço amigo! :)

Janita

lis disse...

Foi veiculado aqui uma série muito bonita sobre este livro ,que ainda não li.
Pelo seu entusiasmo parece-me que vale a pena lê -lo e ver o filme também.
Quanto aos alemães o sentimento de desamor não deve ser cultivado mesmo porque estaríamos sujeitos a magoar quem nada tem a ver com o passado.
Naturalmente que a mim tenho-os engasgado na garganta pelos 7X1 que levamos em plena Copa dentro de casa rsrs e tão só...
um abraço Rosa , bom fim de semana

* gostei muito das fotos e postagens anteriores( o tempo nem sempre permite acompanhar como gostaria)

Teté disse...

Porque será que ao ler a descrição do Eça me lembrei logo da Merkel?!? Mistério... :)

Abraço

Anónimo disse...

A meu ver esse desamor tem sido justificado ao longo da história. No canto X, na sua sabedoria, Camões desabafa, exorta: "Fazei, Senhor,que nunca os admirados/Alemães,(...)/Possam dezer que são para mandados,/Mais que para mandar, os Portugueses."
Habituei-me, desde muito jovem, a deplorar os crimes cometidos pelos seus anti-heróis, mas também a admirar os alemães pela sua capacidade de ressurgir do caos.Ajudou-me a formação adquirida com uma óptima professora que tive no Goethe Institute, no Porto, de seu nome Frau Kissau, a quem presto a minha homenagem. Era a cultura, a bondade, a resignação...Hoje temo que a professora vinda de leste retome/ prossiga as ideias hegemónicas. Nunca se sabe! Um abraço UM

? disse...

"Os Maias" é um daqueles romances que se lê algumas vezes e sempre se descobrem coisas novas. Na minha opinião ele é mais e até o oposto da reputação que tem.

Ah, e quando surge isto: "O ar de sobranceria com que aquela ministra, com feitio de barrica, deixando sair o sebo por todas as costuras do vestido, o olhara, a ele! Ora, a insolente baleia!" - já é o NARRADOR a interpretar a sua versão, pelo que entendi. E sim, o «narrador», Ega e Carlos, muitas vezes, são de uma arrogância altiva e de juízos de valor que em nada ficam atrás dos supostos defeitos daqueles que criticam. E no final, o que estes dois "iluminados" fazem das suas vidas? A porra de nada.

http://possofalardelivros.blogspot.pt/2012/09/a-leitura-de-os-maias.html